25 anos do 11 de Setembro: as perguntas que ainda esperam respostas
Vinte e cinco anos depois, o 11 de Setembro ainda provoca perguntas. Algumas estão relacionadas ao que as autoridades sabiam antes dos ataques. Outras dizem respeito à resposta dada naquele dia. Há ainda aquelas que surgiram depois, quando a fumaça baixou, os escombros começaram a ser retirados e milhares de pessoas permaneceram expostas à poeira e aos contaminantes deixados pela destruição do World Trade Center.
Às vésperas do 25º aniversário dos atentados, duas iniciativas recolocaram parte dessas questões no centro do debate. Em Nova York, a prefeitura divulgou nesta semana mais de 170 mil páginas de documentos sobre qualidade do ar, saúde e a resposta do governo municipal aos ataques. O material inclui o chamado Memorando Harding, encontrado em 2025.
Ao mesmo tempo, o Projeto pela Verdade e Responsabilização sobre o 11 de Setembro (“Project for 9/11 Truth and Accountability”) publicou o primeiro esboço de um relatório que questiona as investigações realizadas pelo governo americano e pede uma nova apuração independente. Os autores dizem que pretendem publicar a versão completa ainda em 2026 e atualizar o documento anualmente.
As duas iniciativas, porém, têm pesos diferentes. Os documentos de Nova York são registros oficiais da administração municipal. Já o novo relatório é uma iniciativa independente que defende novas conclusões e investigações. Essa diferença é fundamental para separar o que os documentos efetivamente revelam daquilo que continua sendo uma alegação.
O dia que mudou os Estados Unidos
Em 11 de setembro de 2001, 19 integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais. Às 8h46, o voo American Airlines 11 atingiu a Torre Norte do World Trade Center, em Nova York. Às 9h03, o United Airlines 175 atingiu a Torre Sul. Às 9h37, o American Airlines 77 atingiu o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, na Virgínia. Às 10h03, o United Airlines 93 caiu em uma área rural da Pensilvânia depois que passageiros tentaram retomar o controle da aeronave.
As duas torres desabaram naquela manhã. Ao todo, 2.977 pessoas morreram, sem contar os 19 sequestradores. Entre as vítimas estavam 343 bombeiros do Corpo de Bombeiros de Nova York, além de policiais, socorristas, trabalhadores e pessoas que estavam nos edifícios e nos aviões.
Mas o número de vítimas não parou de crescer depois daquele dia.
A contaminação do ar
A destruição das torres lançou no ar uma mistura de poeira, fumaça e milhares de substâncias químicas. A Prefeitura de Nova York afirma que dezenas de milhares de socorristas foram expostos a uma nuvem tóxica com mais de 2.500 contaminantes. Estima-se que mais de 9.400 pessoas morreram em decorrência de doenças relacionadas à exposição à área nos anos posteriores, segundo um panorama federal de vigilância médica.
Essas questões são pontuadas nos novos documentos municipais. O arquivo reúne registros sobre preocupações de saúde, qualidade do ar e a resposta da cidade aos ataques.
O que a cidade sabia sobre o ar?
Entre os documentos divulgados está o Memorando Harding, produzido em outubro de 2001, poucas semanas depois dos ataques. O documento registra discussões internas sobre a qualidade do ar e possíveis consequências jurídicas para a cidade relacionadas à exposição de trabalhadores e outras pessoas às condições existentes na região do World Trade Center.
Há também registros relacionados às preocupações levantadas pelo então deputado federal Jerrold Nadler. Segundo um memorando de fevereiro de 2002, havia “pelo menos um nível baixo de amianto” em muitos edifícios de Lower Manhattan. O documento registra ainda que o Departamento de Saúde da cidade havia orientado moradores a limpar os imóveis com “panos e esfregões úmidos”.
“Se as preocupações de Nadler forem justificadas, não estamos informando às pessoas os riscos reais à saúde em Lower Manhattan”, cita o memorando. A frase ajuda a explicar por que a discussão voltou a ganhar força.
O que aconteceu com os documentos?
Outro ponto que chamou atenção foi a existência de 68 caixas de documentos localizadas apenas em 2025, apesar de pedidos anteriores feitos com base na legislação de acesso à informação. A Prefeitura de Nova York informou que os arquivos serão disponibilizados gradualmente. A primeira leva reúne aproximadamente 170 mil páginas, e novos documentos devem ser incorporados ao portal ao longo dos próximos 12 meses, após revisão e retirada de informações pessoais.
A divulgação ocorreu após um acordo com a 9/11 Health Watch, organização que atua em defesa das vítimas e havia recorrido à Justiça para exigir que a cidade tornasse os documentos públicos. “Durante 25 anos, quatro diferentes administrações municipais ocultaram do público, do Congresso dos Estados Unidos e da Câmara Municipal documentos que mostravam o que a cidade realmente sabia sobre o perigo dos químicos tóxicos no Baixo Manhattan e no oeste de Brooklyn após o desabamento do World Trade Center, mesmo enquanto autoridades da cidade continuavam transmitindo ao público a mensagem de que o ar era 'seguro e aceitável'”, destacou o diretor do grupo, Benjamin Chevat, em comunicado.
A cidade também destinou US$ 34 milhões no orçamento fiscal de 2027 para criar e manter o portal público. Para o prefeito Zohran Mamdani, a abertura dos arquivos é uma questão de transparência. “São documentos que mostram o que a cidade sabia sobre o ar tóxico ao redor da Zona Zero, quando soube disso e como agiu para limitar sua responsabilidade”, disse o prefeito em uma coletiva de imprensa.
O prefeito também afirmou que os nova-iorquinos tiveram de lutar durante anos para acessar documentos que, na visão dele, deveriam ter sido públicos desde o início.
As perguntas que atravessam 25 anos
Os questionamentos sobre o que o governo sabia, quando sabia e quais decisões foram tomadas conectam os documentos de Nova York a outra frente que voltou ao debate neste aniversário de 25 anos do atentado: o novo relatório do Projeto pela Verdade e Responsabilização sobre o 11 de Setembro. Publicado também nesta semana, o documento é apresentado pelos autores como o primeiro esboço do futuro Relatório sobre Verdade e Responsabilização pelo 11 de Setembro (“9/11 Truth and Accountability Report”).
O grupo afirma que pretende reunir as evidências que considera relevantes e criar uma base para uma “nova investigação completa e independente”, com poderes legais para obter documentos e obrigar testemunhas a depor. Os autores dizem que o trabalho continuará até que uma investigação desse tipo seja realizada. “A janela de oportunidade para uma verdadeira justiça e responsabilização continua aberta, mas não por muito tempo”, aponta o relatório.
Os primeiros capítulos são dedicados ao que os autores consideram falhas das investigações conduzidas pelo governo americano. O relatório classifica investigações anteriores como “criticamente deficientes” e questiona procedimentos, sigilo de informações e limitações da Comissão do 11 de Setembro, que apresentou seu relatório final em 2004 e concluiu que os ataques foram realizados pela Al-Qaeda.
O novo relatório considera esse trabalho insuficiente. Chega a chamar a Comissão do 11 de Setembro de “comissão do encobrimento” (“The Cover-Up Commission”) e afirma que ela teria sofrido influência da comunidade de inteligência americana. Essas são, porém, acusações e conclusões dos autores do relatório de 2026, e não conclusões estabelecidas pela investigação oficial.
Torres, inteligência e defesa aérea
Um dos capítulos do relatório sustenta que a explicação oficial para o colapso das Torres Gêmeas e do World Trade Center 7 não seria capaz de explicar as características observadas nos desabamentos. O texto afirma que a “demolição controlada é altamente provável” e que a hipótese de colapso provocado por incêndios seria “altamente improvável”.
O relatório também questiona o conhecimento prévio das agências de inteligência. Segundo os autores, órgãos americanos tinham informações sobre alguns dos homens posteriormente identificados como sequestradores antes dos ataques. O documento afirma ainda que pelo menos cinco dos seis principais supostos sequestradores teriam sido alvo de algum tipo de vigilância ou monitoramento.
Outro ponto questionado é a resposta da defesa aérea americana naquela manhã. Na parte mais contundente, o relatório afirma que os ataques teriam sido uma “operação militar e de inteligência de falsa bandeira”, e não um ataque surpresa realizado por extremistas islâmicos.
A visão do especialista
Para Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a divulgação dos documentos tem como principal objetivo responder às famílias que há 25 anos cobram esclarecimentos, além de mostrar a capacidade de atuação das instituições envolvidas na resposta aos ataques.
A professora pondera, porém, que a polarização e a desconfiança nas instituições americanas dificultam um debate consensual sobre o material. “Qualquer ação, qualquer questionamento vai ser visto com desconfiança, independentemente do lado político”, afirma.
Mais do que provocar novas responsabilizações, Denilde avalia que os documentos podem ajudar a entender como o governo americano construiu sua comunicação com a população após os ataques. “Os documentos evidenciam essa questão de como o governo fez esse tipo de comunicação e como lidou com a opinião pública naquele momento”, diz.
Segundo a professora, o material pode tornar mais clara a diferença entre as decisões tomadas pelas autoridades e as narrativas usadas para apresentá-las à sociedade, além de revelar um problema que, na avaliação dela, se repete em outros países: “o uso ou ocultação de informações por governos para sustentar determinadas agendas políticas.”
Fonte: O Tempo