A aposentadoria que não se aposenta
Uma vida inteira de trabalho nem sempre é suficiente para garantir o direito ao descanso. Décadas e mais décadas de labuta não significam que, depois da aposentadoria, os dias finalmente serão de pausa. As marcas no rosto, as mãos calejadas e a força que se esvai com o tempo não bastam quando ainda é preciso garantir o próprio sustento. Há também quem escolha permanecer na ativa e quem veja na ocupação a chance de realizar sonhos adiados ao longo de uma vida de trabalho. Afinal, aposentar-se não significa necessariamente sair do mercado de trabalho.
Em 2025, havia 22 milhões de aposentados ou pensionistas com 60 anos ou mais que recebiam pelo menos um salário mínimo. Desse total, 16% continuavam trabalhando, o equivalente a 3,612 milhões de brasileiros, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Em 2022, eram 3,069 milhões, o que revela um crescimento de 18% em três anos.
Para a economista do Dieese Lúcia Garcia, especialista em questões do trabalho, o crescimento não pode ser dissociado das mudanças provocadas pelas reformas trabalhista e da Previdência. Segundo ela, as duas transformações contribuíram para um mercado de trabalho mais precarizado e para benefícios previdenciários que não garantem, para parte dos trabalhadores, uma vida confortável após o fim da trajetória profissional. “O que vai acontecer é que, perdendo em dois campos, seja porque se perde enquanto trabalhador, seja porque se perde enquanto aposentado ou pensionista, a única forma de você mitigar, minimizar, os danos da falta de renda é de fato continuar trabalhando”, avalia.
Quando parar não é uma opção
Salete Nolasco, de 60 anos, faz parte do grupo de aposentados que trabalham por necessidade. Com um benefício de R$ 1.621, “não dá para sobreviver com um salário mínimo”, sentencia. Mesmo com as dores provocadas pela artrite reumatoide - doença que causa inflamação nas articulações -, a assistente bucal “bate ponto” no emprego para arcar com os custos do tratamento. “Preciso pagar um plano de saúde e os medicamentos, já que nem todos são fornecidos pelo SUS”, explica. Ela recebe o benefício do INSS há nove anos.
Quando as crises são intensas, Salete não trabalha. Nos dias em que as dores são mais amenas, no entanto, vai à clínica bucal exercer o ofício. Além dos próprios custos de saúde, ela ajuda a filha, de 23 anos, a cursar medicina veterinária. “Ela também ganha um salário mínimo, insuficiente para estudar e se manter. Então, enquanto estiver dando conta, vou seguir trabalhando”, declara.
Pedro Pimenta Gomes, o Pedrinho Violão, de 75 anos, tem a mesma renda de aposentadoria de Salete. Aposentado desde 1997, ele lava carros na Praça Carlos Chagas (Praça da Assembleia), em Belo Horizonte, e faz shows de violão em bares da capital mineira. “Não gosto de ficar parado. Todo dia tem serviço, faça chuva ou faça sol. E, se aparecer outro frila, pego também”, conta.
Aposentado como almoxarife, Pedrinho reconhece que o complemento da renda também ajuda no sustento da família. “Queria ganhar mais. Sou casado e tenho três filhos, a aposentadoria nem sempre é suficiente”, observa.
Se, por um lado, há quem trabalhe depois da aposentadoria para pagar o plano de saúde ou complementar uma renda, por outro, há aposentados que permanecem na atividade por outros motivos. É o caso de José Geraldo Machado, de 65 anos. Aposentado, ele ganha pouco mais de R$ 4.000, o que, segundo afirma, é suficiente para arcar com os custos pessoais. Ainda assim, segue trabalhando de segunda a sábado em uma oficina mecânica. O motivo: realizar o sonho de morar no campo.
Antes de se aposentar, trabalhava para pagar as contas de casa. Hoje, destina o benefício para construir no terreno de 1.100 m² que comprou em Jaboticatubas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “É com o salário do trabalho que me mantenho. Ainda faço uns extras em casa. Às vezes vou até dez horas da noite trabalhando, sendo que abro a oficina às 7h30”, explica.
José Geraldo começou a trabalhar aos 8 anos, como boiadeiro. Depois, tornou-se mecânico e, hoje, comanda uma oficina. A meta é continuar trabalhando e, futuramente, curtir uma vida tranquila no campo, ao lado da esposa e das três filhas. Mas sem data marcada. “Deus me abençoou, me deu força, e eu não pretendo parar. Gosto também do que eu faço, né?”, conclui.
“Temos múltiplas velhices no Brasil”, observa a professora Michelle Queiroz, da Fundação Dom Cabral. Entre elas estão pessoas que se sentem aptas e realizadas trabalhando; pessoas que precisam da renda; e pessoas que querem trabalhar por propósito, pois já equilibraram as finanças. “O fato é que, em uma vida caminhando para os 100, as opções também precisarão se estender”, observa a docente, especialista em longevidade.
Para a psicóloga Leny Louzada, mestre em ciências do envelhecimento e especialista em saúde emocional do idoso, a permanência no mercado de trabalho pode gerar uma contradição. Se, por um lado, o trabalho é fonte de prazer, identidade e autonomia, por outro, quando deixa de ser uma opção e passa a ser necessário para garantir a sobrevivência, a experiência pode mudar. “Eu gostaria de diminuir o ritmo, mas não posso”, exemplifica. A falta de escolha, segundo ela, pode provocar ansiedade, frustração e sensação de insegurança.
A relação entre aposentadoria e saúde mental, porém, é complexa. Uma meta-análise com mais de 557 mil participantes encontrou, em média, associação entre aposentadoria e menor risco de depressão, enquanto outros estudos apontam maior risco de sintomas depressivos em casos de aposentadoria involuntária. Para Leny, a questão central não é necessariamente parar de trabalhar, mas ter condições de escolher como, quando e quanto trabalhar.
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