Além da aposta: como as bets afetam saúde mental, finanças e famílias
Quando Patrícia* se casou, acreditava que estava construindo uma nova vida. Ela e o marido haviam comprado um lote onde planejavam erguer a casa da família, mas perderam o terreno porque as parcelas deixaram de ser pagas por ele. Sem alternativa, passaram a morar de aluguel. Poucos meses depois, uma carta de despejo revelou que o marido também havia deixado de pagar o aluguel. Até então, ele garantia que as contas estavam em dia. O dinheiro, na verdade, havia sido consumido pelas apostas online.
Durante um ano e meio, a moradora de Lagoa da Prata tentou convencer o companheiro a abandonar o jogo. Fez acordos, insistiu para que ele voltasse a trabalhar e acreditou quando ouviu que as apostas haviam ficado para trás. A promessa, porém, nunca foi cumprida. "Eu já não dormia à noite, já não conseguia viver tranquila. Acabou afetando meu psicológico. Eu falei: 'Não dou conta mais"', lembra.
Separada aos 23 anos, Daiane precisou trabalhar em dois empregos para quitar as dívidas e financiamentos feitos em seu nome, recorrer a remédios e terapia para enfrentar o abalo emocional e reconstruir a própria vida. "Eu saí com uma mão na frente e outra atrás. Precisei recomeçar a minha vida. Eu só queria paz", resume.
A história da vendedora, hoje com 25 anos, mostra que o problema das bets não termina quando a aposta acaba. Os impactos da dependência ultrapassam o apostador e atingem famílias inteiras. Diante do avanço desse comportamento no país, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional para alertar sobre os riscos da dependência e orientar apostadores e familiares sobre onde buscar tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS). O tema também chegou ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), que discute como lidar com casos de trabalhadores diagnosticados com ludopatia, isto é, a dependência em jogos de aposta.
O que começa como entretenimento pode evoluir para um padrão difícil de interromper. Especialistas explicam que as bets exploram mecanismos cerebrais de recompensa envolvidos na repetição do comportamento.
Para o neurocientista Bruno Rezende de Souza, professor associado do Departamento de Fisiologia e Biofísica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o sucesso das plataformas não está apenas na possibilidade de ganhar dinheiro. Segundo ele, esses aplicativos são projetados para manter o usuário emocionalmente envolvido, explorando mecanismos cerebrais ligados à motivação e à expectativa de recompensa.
"As bets aproveitam sistemas muito antigos do cérebro, responsáveis por nos fazer repetir comportamentos que, ao longo da evolução, eram importantes para a sobrevivência. Eles são extremamente fortes e vulneráveis a estímulos externos. As plataformas usam justamente esse mecanismo para fazer com que a pessoa queira repetir a aposta", explica.
Além da sensação de prazer, o cérebro registra o contexto em que ela acontece. "Uma propaganda, uma notificação no celular, o ícone do aplicativo ou até uma partida de futebol podem funcionar como pistas de que aquela recompensa pode acontecer de novo. Esses sinais despertam a expectativa e fazem a pessoa voltar ao aplicativo", afirma.
Na avaliação do pesquisador, a presença constante das apostas em transmissões esportivas, redes sociais e anúncios na internet reforça esse processo, mantendo o cérebro em estado de alerta para uma possível recompensa. O efeito pode ser ainda mais intenso quando a plataforma oferece pequenos ganhos ao longo do tempo, fortalecendo o comportamento de continuar apostando.
O professor ressalta que adolescentes e jovens estão entre os grupos mais vulneráveis. "Nessa fase da vida, essas áreas ainda não amadureceram completamente. Por isso, adolescentes têm mais dificuldade para avaliar riscos e ficam mais vulneráveis ao desenvolvimento da dependência".
*Nome fictício para preservar a fonte.
Fonte: O Tempo