Brincar não pede brinquedo caro: como resgatar a infância longe das telas
Antes de ser mãe, a advogada Andreza Mendes Domenici também acreditava que um brinquedo mais caro ou mais elaborado seria sempre a escolha certa. “Quando ia presentear uma criança, muitas vezes me preocupava em escolher algo mais caro, achando que ela iria gostar mais”, comenta. Tudo mudou, porém, com a chegada da filha Liz, hoje com 2 anos. “Fui entendendo que, muitas vezes, o simples é o que mais encanta. Uma caixa de papelão, uma brincadeira com água, uma cabaninha improvisada ou um passeio podem proporcionar muito mais do que um brinquedo caro”, reconhece ela à luz da experiência da própria maternidade. Casada com Bruno, desde que se tornou mãe, Andreza acredita que essa mudança de percepção trouxe benefícios para toda família. “Isso mudou muito, para melhor, a nossa relação. Passei a valorizar mais o tempo que passamos juntas, a brincar, conversar, inventar coisas e estar realmente presente. Hoje percebo que não é sobre oferecer sempre mais, mas sobre criar memórias juntas”, ressalta.
O relato de Andreza ilustra bem um fenômeno que a pedagoga, psicopedagoga e neurocientista do desenvolvimento infantil Rachel Mendes observa há anos entre as famílias que acompanha. Mãe e criadora do perfil @atividades_para_brincar, com quase 1 milhão de seguidores, ela percebeu esse mesmo padrão dentro de casa, com os próprios filhos, Ian, de 11 anos, e Mel, de 8, quando ainda eram bebês. “Eles se interessavam mais pela caixa que vinha com o brinquedo do que pelo brinquedo em si. Isso me mostrou, na prática, que não precisamos de brinquedos caros ou estruturados para proporcionar experiências significativas para as crianças. Uma caixa, um papel, uma garrafa ou outros materiais que já temos em casa podem se transformar em grandes possibilidades de brincar e aprender”, cita.
Para ela, essa associação automática entre boa infância e brinquedos caros costuma nascer da boa intenção dos pais, em uma tentativa de suprir o que acreditam ser as necessidades de seus filhos. “Muitas vezes, os pais fazem isso na tentativa genuína de oferecer aos filhos o melhor. Alguns querem proporcionar aquilo que não tiveram na própria infância, como muitos brinquedos caros, viagens caras e várias aulas extracurriculares”, situa. O problema é que o que as crianças buscam costuma ser outra coisa. “As crianças não precisam necessariamente de mais coisas, mais atividades ou uma agenda cheia. Elas precisam, principalmente, de tempo de qualidade junto daqueles que amam”, defende.
Aliás, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, a especialista destaca que brincadeiras como faz de conta, desenho e invenção de histórias colocam a criança em um papel ativo que os brinquedos prontos nem sempre permitem. “No faz de conta, por exemplo, a criança pode transformar uma caixa em uma casa, um pedaço de tecido em uma capa ou um graveto em uma varinha. É ela quem dá significado aos objetos e constrói a brincadeira. Nesse processo, trabalha a imaginação, a criatividade, a linguagem, a capacidade de planejar, resolver problemas e também de compreender diferentes papéis e situações”, detalha. “Quando tudo já vem pronto, com sons, movimentos, personagens e respostas definidos, existe menos espaço para a criança criar o próprio caminho”, compara.
Dicas
No seu perfil nas redes sociais, Rachel costuma propor brincadeiras montadas com materiais que já existem em casa. Uma delas é uma versão de amarelinha com fita crepe colada no chão, formando um emaranhado de linhas que a criança precisa atravessar sem tocar – o que trabalha coordenação motora, equilíbrio e resolução de problemas. Outra usa dois cabos de vassoura cruzados no chão para uma brincadeira de pular ao ritmo da música “Escravos de Jó”. Uma terceira propõe uma fileira de calçados espalhados em diferentes posições, que a criança pula seguindo o ritmo – trabalhando lateralidade e orientação espacial.
Transformar tarefas domésticas em oportunidades de brincar e de conexão é outro caminho que a pedagoga defende, sem que isso vire mais uma atividade planejada na rotina. Na cozinha, a criança pode separar ingredientes, contar quantidades e comparar tamanhos. Ao arrumar a casa, pode organizar objetos por cor ou categoria. Até uma ida ao mercado pode virar uma busca por produtos ou uma escolha entre opções. “Nesses momentos, existe algo que nenhum brinquedo consegue substituir: a presença do adulto, a conversa, a troca de olhares, a participação e a sensação de fazer parte da vida da família”, diz Rachel. “Às vezes, a brincadeira não precisa ser criada. Ela só precisa ser percebida”, completa ela, que reconhece na falta de tempo a justificativa mais comum entre pais que dizem não conseguir brincar com os filhos. Uma justificativa, aliás, que acaba empurrando para debaixo do tapete muitas outras questões.
“Não é que falta apenas tempo. Falta também repertório e, muitas vezes, energia. A rotina dos adultos é corrida e, quando finalmente existe um tempo disponível, nem sempre eles sabem o que fazer para brincar ou não têm disposição para começar a criar uma atividade do zero”, frisa. Foi esse diagnóstico que a levou a criar a marca de recursos pedagógicos Atipabri, com materiais prontos para famílias que querem brincar sem precisar planejar do zero.
Ócio
Embora enriquecer a infância com brincadeiras seja fundamental, a ideia não é, por outro lado, ocupar cada segundo da criança com atividades. Afinal, defende Rachel, é preciso haver também espaço para o tédio e para os momentos em que aparentemente nada está acontecendo. “Quando a criança não recebe uma atividade pronta ou um entretenimento imediato, ela precisa olhar ao redor, pensar, imaginar, criar possibilidades e descobrir o que fazer com aquele tempo. É nesse espaço que pode nascer uma brincadeira inventada, uma história, um desenho, uma construção ou simplesmente uma descoberta”, explica.
Quanto aos adultos que dizem ter esquecido como se brinca, Rachel lembra que brincar não significa necessariamente sentar no chão com carrinhos ou bonecas. “A ludicidade está em muito mais situações do que imaginamos. Pode estar em cozinhar juntos, dançar uma música, fazer uma cabana, caminhar, contar histórias, jogar, desenhar, construir alguma coisa ou simplesmente inventar uma brincadeira a partir do que temos em casa”. E o caminho, indica a pedagoga, passa por abandonar a busca por um jeito certo de brincar e descobrir, em vez disso, o que faz aquela família específica se divertir e se conectar.
Fonte: O Tempo