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É traição? Fantasias sexuais com pessoas próximas expõem dilemas sobre fidelidade

Publicado em: 27/07/2026 às 10:25 Visualizações: 1
É traição? Fantasias sexuais com pessoas próximas expõem dilemas sobre fidelidade

Quando o assunto é sexo, desejo e fantasia, a mente é um território que nem sempre se deixa controlar. A imaginação frequentemente escapa às regras e segue caminhos inesperados. De tempos em tempos, um tabu ressurge e reacende debates repletos de opiniões diversas. Imagine a situação: não há troca de mensagens, flerte, contato físico ou qualquer intenção de transformar a fantasia em realidade.

Ainda assim, basta que o pensamento envolva o parceiro de uma amiga ou de um amigo para despertar um debate sobre os limites da fantasia e fazer surgir a pergunta: imaginar-se sexualmente com uma pessoa próxima, comprometida com alguém do seu convívio, pode ser considerado uma forma de traição?

Não é um assunto que tenha fácil resposta – muitas vezes, inclusive, elas são contraditórias. Para o psicólogo e sexólogo Rodrigo Torres, especialista em terapia sexual, a discussão não pode ser reduzida a um simples “sim” ou “não”. Segundo ele, tudo depende dos acordos construídos por cada casal e da forma como cada pessoa entende seus relacionamentos.

“Existem casais que não funcionam dentro da lógica romântica tradicional e monogâmica. Alguns, inclusive, usam fantasias para apimentar a relação. Tudo depende dos valores, da dinâmica do casal e da maneira como cada um enxerga a própria sexualidade”, explica.

Segundo o especialista, nossa visão sobre desejo também é moldada pela educação, pela cultura e pelas experiências de vida: “A sexualidade atravessa aspectos biológicos, psicológicos e sociais. A forma como fomos criados influencia diretamente aquilo que entendemos como moral, ética e aceitável”.

Rodrigo Torres conta que o tema é levado com certa frequência por pacientes ao consultório. Para ele, um dos pontos mais delicados é a ideia de que um parceiro poderia – ou até deveria – controlar os pensamentos do outro. “A gente precisa tomar cuidado com esse ideal, que muitas vezes vem acompanhado da ideia de posse. Como se, a partir do momento em que duas pessoas estão juntas, uma também tivesse direito sobre aquilo que a outra pensa.”

Repercussão

O Interessa foi às ruas saber o que as pessoas pensam a respeito. A fisioterapeuta Anita Vitória, de 23 anos, acredita que a fantasia tem, sim, fronteiras. Para ela, imaginar cenas com o parceiro de uma amiga demonstra falta de respeito, mesmo que nada aconteça na prática.

“Quando você gosta de alguém como amigo, respeita os limites dessa relação”, afirma. Para Anita, o pensamento também pode representar uma forma de infidelidade: “Mesmo que não exista uma traição de fato, de alguma forma você não está sendo fiel”.

Warley Santos da Silva, de 28 anos, tem uma percepção parecida. Embora defenda que cada pessoa seja livre para pensar o que quiser, o vendedor considera inadequado fantasiar com parceiros de amigos. “Uma relação é somente a dois. O pensamento pode até ser involuntário, mas, lá na frente, acaba sendo seu inimigo. Se eu tenho uma pessoa comigo é nela que eu tenho que pensar”, ele ressalta.

‘Talaricagem’?

Há, no entanto, quem seja mais taxativo. É o caso do artesão Luan Almeida Vogel, de 30 anos. Para ele, fantasiar sexualmente com o parceiro de um amigo já configura uma espécie de “talaricagem”, termo popularmente usado para descrever a traição de um código de amizade, especificamente quando alguém se envolve, de forma afetiva ou sexual, com a pessoa que é ou foi parceira de um amigo próximo.

“É errado, mesmo que nunca aconteça nada na vida real. Se a pessoa pensa, pensando, fica excitada e cria um hábito de masturbação ou de se tocar, mesmo que não tenha atitude de ir na outra pessoa e flertar, ela já colocou um sentimento em ação. A traição não tem a ver só com os corpos físicos”, afirma Luan Almeida.

O psicólogo e sexólogo Rodrigo Torres, porém, evita transformar essa opinião em regra. Segundo o especialista, embora uma fantasia possa, em alguns casos, aumentar o desejo de concretizá-la, isso não significa que toda imaginação seja um plano ou um desejo real.

“Fantasia pertence ao campo íntimo. Não existe uma resposta universal dizendo que isso é ou não é traição. Para algumas pessoas, não há problema algum; para outras, isso seria gravíssimo. O que vale são os acordos estabelecidos entre quem vive a relação”, ele comenta.

Na avaliação do especialista, tentar controlar os pensamentos do parceiro é uma expectativa irreal e que pode desgastar a relação: “Se um amigo meu se masturba pensando na minha esposa, esse é um problema dele. O pensamento pertence a quem pensa. Existe uma tentativa muito antiga da sociedade de controlar até a vida mental das pessoas e é preciso ter muito cuidado com isso”.

  Fonte: O Tempo   
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