Fadiga cognitiva: como o barulho urbano esgota a energia mental
Você escutou hoje o trinar dos pássaros na sua rua? A pergunta pode parecer um pouco despropositada, especialmente no corre-corre diário de um centro urbano, mas foi ela que ajudou a fundamentar uma pesquisa, realizada pela universidade inglesa de Surrey e publicada na revista científica “People and Nature”. E a resposta pode dizer muito sobre o seu estado emocional.
A conclusão é que prestar atenção no canto dos pássaros pode melhorar o humor e favorecer o bem-estar. Com isso, fica mais do que provado que os sons têm interferência em nosso estado emocional, podendo tanto nos acalmar como nos estressar – barulhos de obras, por exemplo, especialmente aquelas iniciadas antes das 8h, são capazes de estragar o nosso dia.
“O som é considerado por muitos como o canal sensorial mais rápido e direto para as nossas emoções. Diferentemente da visão, que passa por uma série de filtros e interpretações, ele chega ao cérebro quase sem pedir licença, ativando estruturas ligadas à emoção e à memória antes mesmo de a gente entender conscientemente o que está ouvindo”, afirma o psicólogo Thiago de Paula.
É por isso, salienta, que um som nos emociona, assusta ou acalma em frações de segundo, sem que a gente consiga explicar racionalmente o porquê. Ele cita o pesquisador Joseph LeDoux, referência mundial no estudo das emoções, que percebeu uma via rápida do som até a amígdala: o cérebro reage emocionalmente antes de processar o estímulo de forma consciente.
Outro nome citado por Thiago de Paula é o canadense Raymond Murray Schafer, educador musical que criou o conceito de paisagem sonora. “Ele nos ensinou que não apenas ouvimos o ambiente como somos moldados por ele. O som ambiente é como uma trilha sonora invisível que regula o nosso humor o dia inteiro, muitas vezes sem percebermos”, comenta o psicólogo.
“Na minha prática clínica, eu vejo isso todos os dias: pacientes que chegam com irritabilidade, dificuldade de concentração e sono ruim e que, quando passamos a olhar para o ambiente sonoro em que vivem, encontramos ali uma peça importante do quebra-cabeça”, observa Thiago. A diferença do som para outros causadores de estresse é que lidamos com ele de uma maneira rotineira.
O psicólogo e neuropsicólogo Matheus Beato ressalta aspectos biológicos e familiares na maneira de processarmos o som. “Um exemplo: quando eu estou lá pequenininho, escutando minha mãe fazendo aquelas vozinhas de criança, eu vou associar aquele momento a algo feliz. Assim como um barulho muito alto ativa nossa herança biológica, de que aquilo pode ser uma ameaça”.
Beato diz que o processamento auditivo envolve conexões cerebrais que vão se relacionar com a atenção, a memória e as próprias emoções. “Por conta de nossa espécie, atribuímos certos sons a certas emoções ou a certos perigos. Do ponto de vista psicológico, essa resposta vai depender do significado que iremos atribuir a esse som e à possibilidade de controlá-lo”, explica Beato.
“Uma mesma música pode ser agradável, quando escolhemos ouvi-la, ou incômoda, quando ela invade o nosso espaço enquanto a gente está tentando descansar. Por essa questão, tudo irá depender também da situação. Não quer dizer que o fato de eu amar aquela canção irá me trazer benefícios, no caso de não estar preparado para escutá-la”, assinala o neuropsicólogo.
Thiago de Paula sublinha que os sons que nos acalmam são os previsíveis, contínuos e associados à natureza e à segurança. “Como som de chuva, de água corrente, de vento nas folhas e o canto de pássaros. Uma revisão de dezenas de estudos publicada na revista ‘PNAS’ mostrou que os sons naturais estão associados a menos estresse, menos incômodo e melhores indicadores de saúde”.
O impacto na saúde tem a ver, segundo Thiago, com a ativação do sistema parassimpático, o “modo repouso” do corpo, ajudando a reduzir marcadores de estresse como o cortisol. “É por isso que tanta gente dorme com som de chuva ou de mar”, afirma. “Já os sons que nos irritam são, em geral, os imprevisíveis, os agudos e os que não controlamos”, diferencia.
“Os sons que geram ansiedade são os que sinalizam ameaça ou urgência, como sirenes, alarmes, notificações, sons repentinos em ambientes silenciosos. E os que geram exaustão são os ruídos de fundo constantes – o trânsito, o zumbido de aparelhos, o burburinho do escritório – porque mantêm o cérebro em estado de alerta o tempo todo”, define Thiago.
Ele chama a atenção para o fato de que, mesmo não percebendo, estamos gastando energia o dia inteiro para filtrar esses ruídos. “É o que chamamos de fadiga cognitiva. A Organização Mundial da Saúde reconhece o ruído ambiental como um dos principais riscos ambientais à saúde física e mental – não só para a audição, mas para o coração, o sono e o bem-estar emocional”.
Fonte: O Tempo