Homens morrem mais: o peso do preconceito na saúde masculina
Fato: os homens retardam ao máximo a ida ao médico. O resultado está num índice superior de mortalidade e doenças descobertas em estágio avançado, se compararmos os números aos das mulheres. Por onde quer que se olhe, a ideia de um “homem mais forte”, “sem medo”, “que procura médico à toa” e “com tempo escasso” não se sustenta.
“Existe um padrão real de menor procura, por motivos sociais e culturais”, lamenta o doutor Luís Fernando Andrade de Carvalho, pediatra e professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte. Ele cita a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em 2019, que evidencia uma diferença gritante entre homens e mulheres na hora do autocuidado.
Os números mostram que, no ano anterior ao da pesquisa, 82,3% das mulheres tinham feito uma consulta médica. No caso dos homens, somente 69,4%. “Historicamente, o homem tem essa figura de ser o provedor, uma pessoa que aguenta tudo”, registra o doutor Paulo Mascarenhas, médico clínico e coordenador da clínica médica do Mater Dei Betim-Contagem e Nova Lima.
“Não é incomum, de fato, os homens segurarem ao máximo antes de procurarem algum atendimento e de entenderem que precisam de ajuda. Esses valores têm mudado, com o passar do tempo. Hoje temos valorizado a parte de sensibilidade e inteligência emocional, mas seguimos vendo uma certa resistência do sexo masculino em procurar atendimento de uma forma mais assertiva”, relata Mascarenhas.
Carvalho vai no mesmo caminho, ao comentar essa discrepância no trato da saúde, em nome da masculinidade. “Há evidência de que normas rígidas de masculinidade influenciam esse comportamento. Noções rígidas de masculinidade podem estimular meninos e homens a assumir mais riscos, abusar de álcool, evitar ajuda e não buscar cuidados de saúde”.
O efeito desse adiamento é o atraso no diagnóstico, menos prevenção e mais adoecimento grave, de acordo com o pediatra. “Quando o homem entra tarde no sistema de saúde, muitas vezes chega já com queixa avançada, complicações ou doença crônica descontrolada. O Ministério da Saúde resume isso de forma clara: os homens morrem mais do que as mulheres na maioria das causas, têm maior risco de morte por doenças crônicas e vivem menos”, aponta.
Como coisa leva a outra e, ao buscarem atendimento médico antes, as mulheres conseguem fazer um trabalho de prevenção melhor. “Elas costumam ir ao ginecologista, têm o hábito de fazerem consultas preventivas, não esperando necessariamente passar mal. Elas entendem que temos que ser proativos na questão da vigilância da saúde”, observa Paulo Mascarenhas.
Esse peso maior para uma determinada falta de responsabilidade do homem também se vê até na maneira como se comporta no dia a dia. “Essa cultura de o homem ter que se sentir mais importante acaba gerando situações que o colocam em risco maior. Quando a gente vai fazer um levantamento de óbito por acidente, por exemplo, é muito mais comum homem vir a óbito”, registra Mascarenhas.
O coordenador da clínica médica do Mater Dei também nessa “conta” o preconceito machista. “A gente tem algumas condições que são prevalentes no homem, em relação à saúde preventiva, ao não querer fazer um exame de próstata, uma colonoscopia, importantes para detectar cânceres comuns ao sexo masculino”, assinala.
Carvalho ressalta que, num levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) 2023, a expectativa de vida ao nascer era de 73 anos para homens e 80 anos para mulheres. “Os homens vivem cerca de 7 anos a menos e têm risco de 40% a 50% maior de morrer por doenças crônicas não transmissíveis, especialmente cardiovasculares e respiratórias crônicas”.
Ele lembra também que, entre jovens, a violência é um fator agravante muito importante: mais de 90% das vítimas jovens de homicídio são homens.
Ação preventiva desde cedo
O doutor Luís Fernando Andrade de Carvalho, pediatra e professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte, sublinha que, em muitos contextos, há pouco espaço para os meninos falarem do corpo dentro de casa e na escola. “Não é só um problema individual; é de ambiente. Quando o tema corpo, puberdade, sexualidade, micção, higiene ou insegurança física vira tabu, o menino aprende a calar”.
Ele pontua que as diretrizes do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria para adolescentes destacam a importância de escuta qualificada, privacidade, confidencialidade e espaço para o adolescente falar. “Isso mostra que esse espaço precisa ser criado ativamente — ele não surge sozinho”, aponta. “A saúde do homem não começa aos 50 anos, nem no exame de próstata. Ela começa quando um menino aprende que pode falar do próprio corpo sem vergonha, pedir ajuda sem perder valor e cuidar de si mesmo sem achar que isso diminui sua masculinidade”, afirma.
“Na infância e na adolescência, é importante acompanhar crescimento, puberdade, vacinação, saúde mental, hábitos, micção, genitais externos e posição dos testículos. Já na puberdade masculina, devem ser observados sinais do desenvolvimento sexual e do crescimento corporal”, diz Carvalho.
Para Paulo Mascarenhas, médico clínico e coordenador da clínica médica do Mater Dei Betim-Contagem e Nova Lima, todas as ações para essas faixas etárias devem partir do entendimento “de que a saúde é uma coisa construída ao longo de tempo e que precisamos ter um componente preventivo, talvez mais do que tratar coisas que eventualmente aconteçam”.
“Um menino ou adolescente que entende que, se alimentar bem, fazer atividade física, ter uma saúde mental adequada e um comportamento sexual que não o coloque em risco, pode influenciar uma saúde melhor numa vida mais à frente”, pondera Mascarenhas. “A gente tem que deixar as crianças mais abertas, favorecendo o diálogo. Lembrando que, usualmente, as crianças são espelhos de seus pais”, ensina.
Algumas alterações na infância e adolescência são muito importantes porque têm tratamento e podem trazer repercussões futuras se passarem despercebidas. Exemplos sugeridos pelo doutor Luís Fernando Andrade de Carvalho:
Criptorquidia (testículo que não desceu): pode aumentar risco de subfertilidade e câncer testicular se não for corrigida adequadamente; Torção testicular: dor súbita e intensa, urgência médica; Fimose e balanites, quando sintomáticas; Alterações de micção e infecções urinárias; Puberdade precoce ou atrasada; Suspeitas de hipogonadismo; Problemas de imagem corporal, ansiedade, depressão e sofrimento psíquico que podem piorar se ninguém escutar.
Constrangimentos
Além do toque retal, vários outros temas geram vergonha nos homens, segundo Carvalho. Entre eles: * exame físico dos genitais; * investigação de infecções sexualmente transmitidas * perguntas sobre ereção, ejaculação e libido; * avaliação de infertilidade e espermograma; * exame das mamas quando necessário; * falar sobre odor, higiene íntima, lesões, secreções ou curvatura peniana; * assumir sofrimento emocional, uso de álcool ou comportamento de risco. Fonte: O Tempo