Saúde

Joelhos: como chegar aos 80 com autonomia

Publicado em: 21/09/2026 às 11:12 Visualizações: 7
Joelhos: como chegar aos 80 com autonomia

Aos 41 anos, André Luiz Barros Silva chegou a precisar de bengala para se locomover por causa das intensas dores nos joelhos. Com 148 kg, o designer enfrentava crises que dificultavam até subir e descer escadas. Em um dos momentos mais críticos, precisou usar cadeira de rodas.

“Essas dores eram intensas e constantes. Os dois joelhos ficavam latejando, principalmente o esquerdo. Eu tive crises terríveis, que me impossibilitaram de locomoção. Eu tive um período andando de bengala, para você ter ideia. Então, eu deixei de fazer muita coisa”, lembra.

Aos poucos, André começou a perder peso e a recuperar sua mobilidade. Depois de uma cirurgia bariátrica, reeducação alimentar e atividade física, 76 kg ficaram para trás em dois anos. Com a redução do peso as crises deixaram de acontecer. Hoje, ele corre e faz musculação.

“O joelho foi melhorando. A partir do momento que eu comecei a perder peso, o joelho foi mudando, eu sentia que estava mais leve, minha mobilidade foi voltando. Depois, quando pesei menos de 100 kg, parecia que eu nem tinha mais nada no joelho. Não sentia dores. As crises não aconteciam. Eu estava conseguindo me mover, subir escadas normalmente”.

A história de André ajuda a dimensionar o que está em jogo quando se fala em saúde dos joelhos. Preservar a articulação ao longo da vida significa manter a capacidade de se movimentar e realizar as atividades do cotidiano.

De acordo com o ortopedista Marcos Cenni, especialista em cirurgia do joelho, robótica e medicina esportiva e coordenador do grupo de cirurgia de joelho e ortopedia do esporte da Rede Mater Dei de Saúde, os cuidados devem começar ainda na juventude, antes que lesões ou limitações apareçam.

“A articulação foi feita para movimentar. Então, a gente mantendo o bom movimento e dando bom padrão muscular a tendência é a articulação evoluir muito bem. E realmente, deve-se pensar muito em prevenção, porque uma vez que algumas lesões de cartilagem ou de menisco, até mesmo de ligamentos, elas acontecem, a gente já não consegue recuperar o joelho na sua totalidade. Então a gente deve sempre pensar mais em prevenção”, afirma.

Principais causas

Segundo a ortopedista Marcela Silva Freitas, especialista em osteoporose e doenças osteometabólicas, atividade física regular, fortalecimento da musculatura e tratamento adequado de lesões estão entre as medidas que ajudam a preservar a articulação e retardar a perda de função. “Exercício bem orientado não ‘gasta’ o joelho. O sedentarismo e a perda de musculatura acabam sendo muito mais prejudiciais ao longo dos anos”, relata.

A dor nos joelhos pode ter diferentes causas, mas uma das mais comuns ao longo do envelhecimento é a artrose. A doença ocorre quando a cartilagem que reveste a articulação se desgasta, o que pode provocar dor, rigidez, inchaço e perda de movimento. Marcela pondera que não é possível evitar todos os casos da doença. “Idade, genética e lesões anteriores também interferem”.

Cenni acrescenta que traumatismos, entorses, lesões, infecções e inflamações crônicas também podem levar a alterações que favorecem o desgaste da cartilagem. Há ainda a artrose primária, relacionada ao desgaste natural das articulações e a fatores familiares.

“O sobrepeso, ele é importante, mas não é o único fator. Claro que é uma coisa que deve ser combatida, que gera uma sobrecarga desnecessária, mas o mais importante é manter uma boa musculatura, por isso que os hábitos de vida saudáveis são muito importantes para a prevenção da artrose”, explica Cenni.

Atividade física

O excesso de peso sobrecarrega os joelhos, mas emagrecer não deve significar apenas perder quilos. Segundo Cenni, é importante preservar ou aumentar a massa muscular durante o processo, já que a perda de musculatura pode manter a dor e comprometer a função do joelho.

“Se a gente quer manter uma boa funcionalidade em relação aos joelhos, precisa manter a mobilidade e preservar o arco de movimento, além de manter uma musculatura forte. O quadríceps é muito importante, mas não é só ele. Glúteo médio e panturrilha também devem ser trabalhados. Quando fazemos um trabalho mais global, temos um equilíbrio muscular que exerce uma boa função no joelho”, afirma Cenni.

Para o ortopedista, a atividade física deve ser compatível com o preparo de cada pessoa e com as condições do joelho. Segundo ele, a caminhada é uma opção segura, especialmente para idosos, quando não há contraindicações. A bicicleta ergométrica também é recomendada por ter baixo impacto, inclusive para pessoas com artrose mais avançada, desde que praticada de forma moderada.

Cenni orienta que a corrida exige mais atenção quando já existe comprometimento da articulação. “Em um joelho saudável, bem alinhado, com boa musculatura e sem lesões anteriores, o exercício pode ser praticado. Já pessoas com artrose estabelecida ou alterações no alinhamento podem precisar evitar atividades de maior impacto”, ressalta.

Para o fisioterapeuta Rafael Bonaparte, especialista em dor e coluna, exercícios funcionais com carga progressiva são uma alternativa especialmente a partir dos 40 ou 50 anos. “Uma ótima porta de entrada para manter o joelho ativo são exercícios como sentar e levantar da cadeira, bicicleta ergométrica e hidroginástica. Nessa fase, a melhor atividade física é a moderada: ela arrisca menos, machuca menos e favorece a constância e a regularidade, que são o que realmente sustentam o resultado a longo prazo”, diz Bonaparte.

O agachamento também aparece entre os movimentos trabalhados pelo fisioterapeuta. “Ele é um dos movimentos mais importantes para proteger o joelho, simplesmente porque imita o que você faz o dia inteiro, como sentar, levantar do sofá ou subir escadas. A grande vantagem é que ele coloca coxa e bumbum para trabalhar juntos, dividindo o peso do corpo e aliviando a pressão direta dentro da articulação”.

 Quando a dor merece atenção

Nem todo desconforto depois de uma atividade física significa que existe um problema no joelho. Segundo Cenni, uma dor muscular ou um desconforto leve depois de uma sessão mais intensa de exercícios pode ocorrer. A preocupação aumenta quando a dor é forte, persistente ou limitante.

“É diferente daquela dor que sai do razoável, uma dor mais forte, mais persistente, mais limitante, que leva o paciente a ter dificuldade para subir e descer uma escada, para pegar um objeto no chão. Então, essa dor, ela deve ser pesquisada, deve ser avaliada muito bem para afastar fatores que podem levar ao agravamento da artrose”.

Calor, inchaço e dor persistente são outros sinais que justificam uma avaliação mais cuidadosa. Travamentos e ruídos articulares importantes também devem ser observados, principalmente quando aparecem acompanhados de dor.

 A ortopedista Marcela reforça que dor não deve ser encarada como uma consequência obrigatória do envelhecimento. “Não é inevitável. Envelhecer não significa que a pessoa tenha que conviver com dor. Uma dor que persiste, volta com frequência ou vem acompanhada de inchaço, travamento ou perda de movimento merece ser investigada”.

 

Fonte: O Tempo 

 

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