Liderança humanizada: como equilibrar acolhimento e cobrança no ambiente corporativo
Os tempos em que gritos e relações hierárquicas rígidas eram vistos como parte natural do ambiente corporativo ficaram para trás. Hoje, o desafio é liderar com acolhimento, mas sem deixar de ser firme, ou seja, o caminho é exercer uma liderança que inspira sem romantizar. Para o diretor de desenvolvimento de parcerias e influenciadores da Awin Global, Marcos Souza, comparar um gestor atual com um chefe de 20 ou 30 anos atrás é quase impossível, pois, nas últimas décadas, a figura do chefe autoritário deu lugar a um modelo de liderança mais voltado para o diálogo, o desenvolvimento profissional e o bem-estar das equipes.
“Acho que, antes até de entender essa mudança do perfil, temos que entender o que combinou para isso”, afirma Souza, um dos palestrantes do Leader Shift, evento que tem nesta quarta-feira (10/6) seu segundo e último dia, no Minascentro.
+ “Tecnologia é meio, nunca o fim”: especialistas defendem IA como aliada nas empresasDe acordo com ele, dois fatores foram decisivos para essa mudança. O primeiro foi o surgimento de canais que deram voz aos funcionários, como redes sociais e plataformas de avaliação corporativa. O segundo tem a ver com a incorporação de pautas ligadas à governança e à responsabilidade social pelas empresas.
Se no passado o bom gestor era aquele que defendia os interesses da companhia a qualquer custo, hoje a expectativa é bem diferente. “O gestor atual tem o desafio de acolher as pessoas e garantir a maior eficiência, a maior produtividade”, analisa.
+ “Inovação nasce da discordância, não do consenso”, afirma Helena Bertho do NubankNa avaliação de Souza, a própria palavra “chefe” passou a carregar uma conotação negativa. Segundo o gestor, durante décadas predominou uma lógica baseada exclusivamente em produtividade e cumprimento de metas, sem grande preocupação com os impactos sobre os trabalhadores. “Era uma relação muito mais direta: chegar, produzir e ir embora”, resume. Ele aponta que a mudança também foi impulsionada pela maior mobilidade do mercado de trabalho. “Com mais oportunidades profissionais e novas gerações menos dispostas a permanecer em ambientes considerados tóxicos, o papel da liderança ganhou uma dimensão mais estratégica”, frisa.
Gestão é ponte
Para o executivo, o gestor moderno precisa atuar como uma ponte entre os objetivos da empresa e as expectativas dos funcionários. Isso significa criar vínculos, oferecer perspectivas de desenvolvimento e estabelecer relações mais próximas, sem perder o foco nos resultados. “Hoje as pessoas têm menos medo de mudar de emprego ou de carreira. Por isso, o líder precisa ser capaz de criar conexão e pertencimento”.
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O desafio, porém, está em encontrar o ponto de equilíbrio entre acolhimento e cobrança. Em um cenário em que a saúde mental ganhou protagonismo nas discussões corporativas, líderes precisam demonstrar empatia sem abrir mão da responsabilidade de entregar resultados. “Você precisa garantir que o funcionário tenha controle sobre a própria carreira. Em contrapartida, existe a responsabilidade de entregar aquilo que a empresa espera”, afirma.
O executivo ressalta que a cobrança continua fazendo parte da liderança, mas deve ocorrer de forma clara e respeitosa. Em vez de recorrer a discursos motivacionais genéricos, ele acredita que os gestores devem investir em conversas francas sobre desempenho, promoções e perspectivas profissionais.
Saúde mental
A saúde mental também se tornou uma responsabilidade compartilhada entre empresas e lideranças. Embora políticas institucionais sejam fundamentais, Souza considera que os gestores ocupam uma posição estratégica por estarem na linha de frente da relação com as equipes. “Muito do que impacta a saúde mental está relacionado à falta de pertencimento e participação”, observa.
Segundo ele, criar canais de comunicação transparentes e um ambiente em que as pessoas se sintam ouvidas é uma das principais formas de fortalecer o bem-estar no trabalho. Isso não significa atender a todos os pedidos dos funcionários, mas garantir que eles tenham espaço para expressar preocupações e participar das decisões que afetam sua rotina. “É importante que as pessoas saibam o que depende delas e o que depende de fatores externos. Essa clareza ajuda a construir uma relação mais saudável e sustentável entre empresa e funcionário”, argumenta.
Para ele, produtividade e bem-estar não são objetivos incompatíveis. “O caminho passa pela transparência sobre processos, metas e possibilidades de crescimento. Quando os profissionais entendem os critérios que orientam promoções, aumentos salariais e decisões estratégicas, reduzem-se as frustrações geradas por expectativas irreais”, conclui Souza.
Gestão humanizada é fator de conexão
Um dos maiores desafios das organizações atualmente está em desenvolver competências humanas capazes de fortalecer as relações dentro das equipes. Esta é a avaliação da editora-executiva de O TEMPO, Renata Nunes. “O líder não precisa ter todas as respostas. Seu papel é trabalhar junto ao colaborador na construção de experiências que gerem valor para todos”, afirma.
Palestrante do Leader Shift, evento que acontece nesta quarta-feira no Minascentro, ela defende que a gestão humanizada é uma ferramenta essencial para conectar pessoas e resultados.
“Na organização, o líder precisa estabelecer uma relação de confiança com sua equipe: ser elo, observar, identificar habilidades e perfis, ouvir e nunca se furtar a dizer o que precisa ser dito: sempre com respeito e coragem”, destaca.
A executiva também fala sobre a importância da presença feminina nos espaços de decisão. Para ela, características como sensibilidade, capacidade de articulação, visão sistêmica e resiliência, frequentemente desenvolvidas em diferentes dimensões da vida das mulheres, contribuem para organizações mais inovadoras, diversas e humanas. “Ser intencional ao promover o crescimento das colaboradoras é parte fundamental desse processo”, ressalta.
Fonte: O Tempo