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Os prós e contras do sexo casual

Publicado em: 12/12/2025 às 10:23 Visualizações: 1
Os prós e contras do sexo casual

Liberdade e prazer versus culpa e julgamentos. O sexo casual não é uma novidade em nossa sociedade, mas ainda é encarado de forma desigual, especialmente quando o assunto envolve gênero. Enquanto homens frequentemente recebem validação social por múltiplas experiências, as mulheres continuam enfrentando rótulos pejorativos, culpa internalizada e maior escrutínio moral.

Uma pesquisa deste ano da Sexlog - rede social adulta voltada para encontros sexuais - com mais de 29 mil brasileiros, revela que 85% já vivenciaram sexo casual e 87% relatam satisfação imediata, com melhora na autoestima (68,3% entre mulheres e 74,5% entre homens). A motivação principal é prazer e diversão (88%).

Rafaela Tostes, estudante de 23 anos, relata que esses “breves encontros” têm a ver com espontaneidade e podem surgir organicamente, mesmo quando não se está “à caça”. "Às vezes acontece quando a pessoa quer relaxar, a própria conversa em si pode levar a isso. O interesse é construído naquela própria conversa sem necessariamente progredir para algo maior e mais sério".

Contrariando o conservadorismo, a servidora pública Sidneia Aparecida, de 57 anos, conta que nunca teve essa experiência, mas considera normal. "Cada um é dono do seu próprio corpo e dono da sua vontade. Na minha época não era normal para a sociedade, principalmente para as mulheres, mas hoje eu acho normal”.

Quando desejo, corpo e mente estão alinhados, o relacionamento breve é leve, bonito e libertador, afirma a sexóloga Allys Terayama. Mas ela alerta que  mulheres carregam mais camadas emocionais e sociais nessa experiência. “Culpa, medo de julgamento, expectativas, vulnerabilidade física e emocional. Homens são socializados para separar sexo de emoção e são até celebrados por isso. Elas entram mais atentas; eles, muitas vezes, entram desligados emocionalmente. A vivência nunca é igual porque o peso que cada um carrega também não é”, explica.

Entretanto, a psiquiatra e sexóloga Fernanda Araújo pondera que não se pode generalizar, afinal, cada um tem sua bagagem de vida. “A psicologia nos lembra que cada pessoa carrega um imaginário simbólico sobre o sexo — heranças culturais, crenças familiares, e experiências anteriores. Assim, muitas mulheres, por exemplo, ainda lutam contra expectativas sociais que as fazem associar desejo a culpa ou responsabilidade emocional, enquanto muitos homens foram ensinados a dissociar intimidade de vulnerabilidade. Mas, embora exista uma tendência geral, o comportamento sexual é sempre um encontro entre biologia, psique e cultura. E quando olhamos para indivíduos — não para estatísticas — vemos mulheres absolutamente confortáveis com sexo casual e homens que se vinculam profundamente após uma única experiência. A singularidade de cada história fala mais alto”, esclarece Fernanda, que também é terapeuta de casais e psicanalista Junguiana.

Liberdade

Segundo o sociólogo Jorge Leite Jr., o sexo recreativo representa um respiro de liberdade em um mundo ainda marcado por normas tradicionais. Ele defende que "sexo casual é só uma expressão de uma vida sexual adulta e sadia, que sabe que o universo da sexualidade é muito maior do que o universo dos relacionamentos institucionalizados ou do amor romântico", defende.

Leite Jr. enfatiza o enriquecimento pessoal. "Outro ponto positivo é você ter uma experiência sexual prazerosa, independente de laços de amor ou de amizade. Isso traz toda uma experiência para enriquecer a própria vida sexual da pessoa e o universo dos seus afetos".

O psicólogo e sexólogo Rodrigo Torres esclarece as diferenças de visões. “Para alguns, é vazio, exatamente porque essas pessoas precisam de mais conexão emocional e afetiva para sentirem prazer, para se excitarem. Ou porque elas foram educadas para pensar que o sexo só é bom quando há conexão emocional. Então, para alguns é libertador, exatamente pelo contrário disso, porque eu posso me expressar, eu posso ser eu mesmo e eu me sinto livre para fazer o que eu quiser".

Pegar sem se apegar?

Apesar dos benefícios, o sexo casual carrega riscos psicológicos e sociológicos. A pesquisa da Sexlog também indicou que 57% do total de entrevistados, indiferentemente do gênero, acreditam que o sexo casual pode evoluir para amor, o que expõe a dificuldade de separar corpo e afeto. A regra é clara: casual não tem continuidade, mas Torres alerta que "a gente não controla as nossas expectativas, a gente não controla a cultura que a gente tá inserido, a gente não controla as emoções". Isso pode levar a "um enamoramento, um apaixonamento, uma troca afetiva e emocional dentro daquela relação"

Allys acrescenta. "O corpo não lê contrato. Durante o sexo, o cérebro libera hormônios de vínculo: oxitocina, dopamina, que criam sensação de aproximação e até de confiança. Se existe carência emocional, carinho, repetição, conversas profundas ou gestos de cuidado, o cérebro interpreta aquilo como afeto. O corpo tem sua própria linguagem, e muitas vezes ela fala mais alto que qualquer acordo verbal”.

O "ghosting" pós-encontro, muito comum nesse tipo de situação, pode afetar a autoestima dos envolvidos. "Mesmo quando deixamos claro que o encontro é casual, existe no ser humano um desejo universal de ser reconhecido, lembrado e considerado. Quando o ghosting acontece, ele mobiliza questões mais profundas como invisibilidade, descarte ou a fantasia de que 'não fomos bons o suficiente'", reflete a psiquiatra Fernanda.

Também não se pode desconsiderar as pessoas casadas que buscam sexo casual e podem ferir outras pessoas. “Chegam cheios de fogo, juram que a relação que vivem está acabada, que ‘ninguém os entendem’, mas no fim da noite voltam pra cama com seus cônjuges. E você vira só o intervalo emocional dele. Ninguém nasceu pra ser intervalo de ninguém”, avisa Allys.

Para proteção, os especialistas aconselhar estar atentos ao tipo de pessoa que desejam ter um momento de prazer, deixar claro os contratos da relação, escolher gente madura, saber que não há garantias de não se envolver e manter a saúde emocional em dia. O segredo está na clareza, no autoconhecimento e na responsabilidade afetiva – consigo e com o outro.

  Fonte: O Tempo  
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