Padre excomungado denuncia 'escândalos' e critica Igreja Católica
O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, excomungado pelo Vaticano após aderir à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, publicou uma "carta aberta aos católicos" na quinta-feira (16/7). No documento de oito páginas, o sacerdote lista supostos escândalos morais, sexuais e de corrupção na Igreja Católica e afirma que foi punido por defender a tradição e não por desvios de conduta.
A carta integra um episódio que mobilizou a Arquidiocese de Brasília desde o início de julho, quando a excomunhão do padre e da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia, foi confirmada oficialmente. O sacerdote rejeitou a punição, declarou-a inválida e anunciou que continuará celebrando missas.
A fraternidade conta atualmente com 720 sacerdotes e cerca de meio milhão de fiéis em todo o mundo, conforme dados divulgados pelo próprio grupo. Após o caso, foi apresentado um recurso ao Vaticano contra a excomunhão dos membros da fraternidade e dos bispos que haviam sido ordenados sem a autorização do papa.
O que diz a carta
No texto, padre Françoá descreve a chamada "Igreja Conciliar Sinodal" como um "parasita" do que ele define como a "verdadeira Igreja". O sacerdote afirma que, ao longo de 22 anos de sacerdócio, precisou enfrentar bispos e entrar em conflito com sacerdotes e leigos para defender o que considera a fé católica legítima.
Entre os episódios narrados, ele menciona que, em setembro de 2022, denunciou eventos de macumba realizados em um templo católico na Paróquia de Sobradinho e na Catedral de Brasília. Segundo o padre, o vídeo com a denúncia viralizou e a Arquidiocese determinou que o material fosse retirado do ar; ordem que ele afirma ter cumprido na época.
Ele também relata que trabalhou quatro anos na Arquidiocese de Brasília e chegou a ser escolhido para representar os padres de Ceilândia em questões pastorais e de coordenação. Em 2024, foi removido da Paróquia Senhor Bom Jesus após incluir traduções em latim no Missal Romano. "Mesmo colaborando tanto com esta Arquidiocese, quando eu coloquei uns papéis dentro do Missal Romano que traziam a tradução ao latim daquilo que estava em português, fui retirado da Paróquia Senhor Bom Jesus, em 2024", escreveu.
Na carta, o sacerdote argumenta que sua punição não decorre de irregularidades morais, mas do apego à Tradição Católica e à "fé de sempre". Ele afirma ainda ter sido repreendido e removido de outras paróquias por "pregar catolicamente" contra "erros protestantes" e por celebrar missas em latim.
"O nosso apego à Tradição é tão forte que nem precisamos justificar nossa catolicidade, pois apenas transmitimos aquilo que recebemos. Os senhores, membros da Igreja moderna, é que precisam justificar a catolicidade dos senhores, já que, como fica claro a cada dia que passa e a cada novo escândalo, trabalham à margem da fé católica e contra a fé católica dos nossos antepassados", escreveu o sacerdote.
Para reforçar o argumento, padre Françoá evoca figuras como Santo Atanásio e Santa Joana d'Arc. Segundo ele, ambos resistiram à hierarquia eclesiástica de suas épocas, foram condenados por autoridades da Igreja e posteriormente reconhecidos como santos.
Ele reiterou oposição a princípios da Igreja atual. "Não podemos aceitar os erros do Concílio Vaticano II, entre eles, a liberdade religiosa, o ecumenismo, o humanismo horizontal, a reforma da missa, a colegialidade sinodal", afirmou.
Fraternidade São Pio X
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X defende a preservação da liturgia anterior ao Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, e uma interpretação mais rígida da doutrina da Igreja. O grupo rejeita as reformas promovidas naquele período, que incluíram o fim da obrigatoriedade das missas em latim, a reorientação dos padres para celebrar voltados aos fiéis e a abertura ao diálogo inter-religioso.
Entre as posições centrais da fraternidade estão o retorno das missas em latim, a celebração com o padre de costas para os fiéis, a rejeição à separação entre Igreja e Estado e a recusa ao diálogo com outras religiões.
O Vaticano declarou que todos os padres e católicos que "aderem formalmente" ao grupo encontram-se em cisma e excomungados. No site brasileiro da fraternidade, afirma-se que o objetivo da congregação foi "mal compreendido" e que o fundador, arcebispo Dom Marcel Lefebvre, não pretendia desafiar o papa, mas "simplesmente continuava uma tradição católica ininterrupta".
Fonte: O Tempo