Perda de urina e dor no sexo podem aparecer antes da menopausa
Aos 45 anos, a esteticista Maria Fonseca começou a perceber que a perda de urina estava interferindo em situações comuns do seu dia a dia. Um espirro, uma tosse ou uma gargalhada eram suficientes para provocar um escape. A situação atrapalhava também momentos íntimos e de lazer.
“Às vezes eu estava num bar com a turma, eu dava aquela risada e saía o xixi. Era muito incômodo. Cheguei a ter perda de urina durante a relação sexual. É muito constrangedor”, conta.
O problema também fazia com que Maria precisasse se preparar para situações que antes eram banais. Quando teve períodos de gripe com tosse recorrente, por exemplo, chegou a usar absorvente porque os escapes eram frequentes e consideráveis. Ainda assim, por algum tempo, ela acreditou que aquilo era uma consequência natural da idade.
Um tempo depois, Maria também começou a apresentar outros sinais da transição hormonal, como ondas de calor, ganho de peso e menstruação irregular, que às vezes ficava dois ou três meses sem aparecer. Ao procurar uma ginecologista, ela descobriu que a perda urinária poderia estar relacionada à fase que atravessava - a perimenopausa -, mas que não deveria ser encarada como algo normal ou inevitável.
“Eu comentei com ela dessa perda de urina, ela falou: ‘É comum de acontecer nesse período pré-menopausa, mas não podemos considerar normal, tem que ser tratado. Se você não tratar, quando você chegar a 60 anos, você vai estar usando fralda’”, recorda a esteticista.
Segundo o ginecologista obstetra Filipe Vieira, a perimenopausa é justamente o período de transição entre a fase reprodutiva e a menopausa. Normalmente ela ocorre por volta dos 45 anos. Nessa etapa, a função dos ovários começa a oscilar e a produção hormonal deixa de ocorrer de maneira regular.
“Os principais sintomas em relação ao período da perimenopausa vão decorrer dessa produção hormonal já não tão eficaz. A primeira coisa é uma mudança no padrão do fluxo menstrual, com ciclos que podem ficar muito curtos ou, ao contrário, períodos longos sem menstruar. Além disso, podem surgir fogachos, piora do sono, irritabilidade, ansiedade, oscilação de humor, cansaço, dificuldade de concentração, dores musculares, diminuição da libido, ressecamento, alterações urinárias, urgência para urinar e maior tendência ao ganho de peso”, explica.
O impacto da queda hormonal
Vieira observa que a queda do estrogênio também pode repercutir diretamente na saúde ginecológica e sexual. A redução do hormônio pode deixar a mucosa vaginal mais sensível e ressecada, favorecendo desconforto, ardência, coceira e maior suscetibilidade a infecções urinárias e vaginais. A libido também pode ser afetada.
“É importante a mulher já ter um acompanhamento ginecológico regular para que esses sintomas sejam tratados de uma forma mais segura e precoce, melhorando a qualidade de vida. Sangramentos irregulares, alterações do sono, ganho de peso, queda de disposição e libido e dor na relação sexual são situações que precisam ser acompanhadas. O ideal é que a mulher não espere a menopausa para procurar ajuda”, afirma.
A terapia hormonal pode ser uma opção para algumas mulheres, mas não é indicada indiscriminadamente. De acordo com o ginecologista, a avaliação médica é necessária para identificar indicações e contraindicações, já que o tratamento pode aumentar riscos em determinadas pacientes.
De volta ao controle
Diante da perda urinária, Maria iniciou sessões de fisioterapia pélvica. Durante quatro meses, ela fez exercícios orientados e também passou a repetir os movimentos em casa. Com o tratamento, os escapes diminuíram. Ela, que hoje tem 52 anos, também percebeu mudanças na vida sexual e no controle de gases.
“Eu fui gradativamente parando de ter as perdas de urina. Eu percebi que não tinha nenhum controle dessa minha musculatura pélvica. E isso também refletia na parte sexual, porque quando você não tem força nessa musculatura, reduz a sensibilidade para o prazer. Com o tratamento, eu comecei a perceber melhor essa musculatura e consegui ter mais controle”, conta.
A fisioterapeuta pélvica Brenda Assunção explica que a região pode sofrer mudanças durante a perimenopausa, mas ressalta que cada mulher terá uma experiência diferente. Ressecamento, alteração da lubrificação, desconforto nas relações, mudanças no funcionamento da bexiga e alterações do assoalho pélvico podem aparecer nessa fase.
“Assoalho pélvico não é só força. Algumas mulheres podem ter uma musculatura fraca, mas outras podem ter uma musculatura muito tensa, que não consegue relaxar direito. Por isso, sair fazendo exercícios de contração sem avaliar pode não ser a melhor opção. O tratamento depende do que encontramos na avaliação e pode envolver fortalecimento, relaxamento, coordenação com a respiração, mobilidade da pelve e estratégias para urgência urinária e escapes”, explica.
Segundo Brenda, a bexiga e a uretra também sofrem influência das alterações hormonais. Por isso, algumas mulheres podem passar a sentir mais urgência, urinar com maior frequência, acordar durante a noite para ir ao banheiro ou apresentar escapes. Mas nem toda alteração urinária deve ser atribuída automaticamente à perimenopausa.
“O funcionamento do assoalho pélvico, a forma como a mulher contrai e relaxa essa musculatura, os hábitos urinários, a constipação, a ingestão de líquidos e até a forma como ela se movimenta também podem estar envolvidos. E uma coisa importante: perder urina não é algo que a mulher precisa simplesmente aceitar porque está envelhecendo”, afirma.
A intimidade também é afetada
A fisioterapeuta também chama atenção para as queixas sexuais. A redução da lubrificação pode tornar a relação dolorosa, enquanto a própria dor pode fazer com que a musculatura do assoalho pélvico se contraia como mecanismo de proteção. Nesses casos, fortalecer a região nem sempre é o caminho.
“Quando existe dor, é comum o corpo responder contraindo a musculatura como uma forma de proteção. Só que, se isso vira um padrão, essa musculatura pode ficar cada vez mais tensa e contribuir ainda mais para a dor. Por isso, nem toda mulher com queixa sexual precisa ‘fortalecer o períneo’. Às vezes, precisamos ensinar essa musculatura a relaxar”, explica.
“A perimenopausa é uma fase natural, mas a mulher não precisa simplesmente se acostumar com sintomas que incomodam. Fazer uma avaliação não significa necessariamente que você vai precisar fazer tratamento. Às vezes, a avaliação mostra que está tudo bem e você recebe apenas orientações para manter uma boa função. Fisioterapia pélvica também é prevenção, conhecimento e autonomia sobre o próprio corpo”, afirma Brenda.
Fonte: O Tempo