Destaques

Pressão do Enem: como não pirar antes da prova

Publicado em: 02/06/2026 às 08:59 Visualizações: 1
Pressão do Enem: como não pirar antes da prova

O prazo para inscrição no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2026) vai até esta sexta-feira (5/6) e todo processo é feito pela internet, em poucos minutos. O que costuma durar mais é a sensação de que, com o preenchimento do formulário, a prova deixa de ser algo abstrato para se tornar um compromisso – que muitos encaram como o mais importante de suas vidas. É o que reconhece a pedagoga e psicopedagoga Rosângela Pimenta Augusto. Pós-graduada em psicopedagogia e neuropsicopedagogia e fundadora da Redação & Cia, escola de reforço no bairro Primeiro de Maio, em Belo Horizonte, ela avalia que o ato de remeter o formulário torna as coisas mais palpáveis. “A abertura das inscrições, por si, pode gerar sim alguns gatilhos emocionais, pois, até então, esse candidato ainda está na expectativa, mas, de repente, com a inscrição finalizada, vem a realidade. E com isso surgem imediatamente vários desafios”, assinala.

O mecanismo por trás desse fenômeno, explica a psicóloga Renata Borja, tem nome: ansiedade. Primeira sul-americana certificada em terapia metacognitiva pelo MCT Institute, ela destaca ser comum que, diante da iminência da prova, pessoas mais ansiosas façam uma avaliação exagerada de risco e de ameaça, subestimando suas capacidades de enfrentamento desse risco. “Ela entende que algo ruim pode acontecer e entende que não tem recursos para lidar com aquilo”, resume, listando entre os temores antecipados questões como não conseguir a nota desejada, não entrar no curso certo e, mais fatalmente, não alcançar o futuro imaginado.

Mas não é só o medo do fracasso que entra em cena. Renata aponta também outro fator menos óbvio: a própria natureza desse momento na vida do jovem. “O Enem é um momento de transição. É quando o jovem sai daquela vida escolar e passa para outro momento, para uma vida universitária. Ele vai ter mais responsabilidades, vai escolher o tipo de profissão que vai seguir”, lembra, inteirando que esse acúmulo de incertezas – “será que é a coisa certa?”, “é isso que eu quero mesmo?” – alimenta um loop de questionamentos que simplesmente não têm resposta imediata, pois dependem do próprio amadurecimento.

Mas parte considerável da pressão encarada neste momento não nasce dentro do próprio estudante. Muitas vezes, essa tensão apenas responde à cobrança externa – que chega de espaços como a família, a escola e as redes sociais. Rosângela, de seu trabalho com estudantes, conhece bem essa realidade. “Vem pressão de todos os lados”, destaca, ponderando que o recorte socioeconômico também tem peso nessa equação. “Quem vem de uma escola pública pode se sentir mais inseguro, com medo da competição com alunos de escolas particulares, daqueles que podem fazer cursinho e que têm mais tempo para estudar”, observa.

Já Renata vai mais atrás na linha do tempo. Segundo ela, a construção dessa pressão começa muito antes da adolescência. “Muitos pais começam já a falar no Enem com as crianças de 8, 9 ou 10 anos. E os professores também. Então, isso vai criando neles uma ideia de que o Enem é uma coisa difícil, complicada, e eles começam a pensar que não vão conseguir passar”, defende, salientando que muitos se percebem assombrados por frases como: “Se você não passar no Enem…”.

As redes sociais, claro, potencializam esse processo ansioso. “Muitas vezes a pessoa vai colocar lá: ‘Estudei hoje o dia inteiro’, ‘estudei 10 horas’. Quem não consegue seguir uma rotina assim vai logo pensar: ‘Nossa, eu não estudei tudo isso, então eu não vou conseguir passar’”, ilustra Renata. Rosângela Pimenta concorda. Ela frisa que, no ambiente digital, a comparação costuma ser mais imediata. “Muitas vezes, o que vemos parece perfeito: a carga horária, os resultados expressivos, os relatos de sucesso. O que nem sempre é mostrado, por outro lado, são as dificuldades, os momentos de cansaço que acompanham esse processo”, critica, assinalando o descompasso entre o que se vê nas redes e a vida como ela é.

O resultado é o pensamento que a psicóloga Renata Borja chama de “tudo ou nada”. “O candidato começa a pensar que se ele não passar, sua vida acabou – o que é um erro”, define. “Na realidade, o que acontece é que se eu não passar, eu terei mais tempo para tentar e outras coisas para fazer”, examina.

Quando a ansiedade deixa de ser passageira

Algum nível de tensão diante do Enem, que em 20026 será realizado nos dias 8 e 15 de novembro, é esperado – e não é necessariamente um problema. “É uma reação natural do estudante diante de uma situação de avaliação", pontua a pedagoga e psicopedagoga Rosângela Pimenta Augusto. O problema começa quando esse estado não passa e a ansiedade deixa de ser uma reação pontual, se instalando como modo de funcionamento. “Se for algo excessivo e persistente, que compromete a qualidade de vida, é preciso ter um olhar mais apurado”, alerta a psicopedagoga, listando sinais variados: dificuldade para dormir, crises de choro, irritabilidade, queda no rendimento escolar, isolamento.

Renata, por sua vez, descreve o mecanismo de aprofundamento do transtorno. “A pessoa fica o tempo inteiro em estado de alerta e não consegue sair disso. Esse estado de alerta é mantido pelo excesso de preocupação e de ruminação. Quanto mais ela cria perguntas sem respostas, mais ativada fica”, informa, lembrando que o problema vai impactar a capacidade de reter conteúdos. “A pessoa vai ter dificuldade de concentração, de atenção. O foco dela vai estar no problema, nas preocupações, ao invés de estar no estudo”, cita.

Há ainda um paradoxo que complica o quadro. “Não é incomum as pessoas começarem a rejeitar a emoção ansiedade por entenderem que ela é um problema, com medo da ansiedade patológica. E esse medo de sentir ansiedade gera mais ansiedade”, explica Renata. Ou seja: tentar eliminar a ansiedade a qualquer custo pode piorar o quadro. “Por isso é importante dizer que não, estar ansioso não é sinal de que você não vá conseguir fazer uma boa prova. Pelo contrário. Você pode estar ansioso e fazer uma excelente prova”, tranquiliza.

O equívoco do ‘estudar mais’

Uma das crenças mais arraigadas nessa época é a de que dedicar mais horas ao estudo garante um resultado melhor. Renata, porém, contesta. “Já tive pacientes estudando 10 horas com nota ruim, mas, curiosamente, conseguiu dobrar a nota depois de modificar a rotina, passando a estudar a metade do tempo e se abrir para outras coisas, inclusive tempo de lazer. Ou seja, não é o tempo que gasto estudando, mas a qualidade desse tempo que vai fazer a diferença”, avalia.

A atividade física aparece, nas falas das duas especialistas, como um elemento subestimado nesse processo de preparação. “Meia hora de atividade física no dia já vai ajudar essa pessoa a ter o dobro de concentração, atenção e foco”, diz Renata Borja. “Uma pessoa que não faz atividade física vai precisar estudar seis horas, enquanto que uma pessoa que fez vai precisar estudar três e vai entender mais, vai reter mais”, completa. A recomendação é que o exercício seja feito preferencialmente antes do estudo, e não ao final do dia – quando seus efeitos cognitivos já não serão aproveitados.

O sono também é colocado como prioridade. “É necessário que o estudante durma o quanto for necessário, pelo menos 8 horas, para que possa ter uma memória boa, uma capacidade para resolver problemas”, indica Rosângela.

Quanto ao conteúdo em si, Renata sugere uma abordagem mais estratégica do que exaustiva. “Não busque estudar tudo. Se você ficar focado na matéria completa, vai ficar mais ansioso porque é muita matéria. Ao invés de buscar estudar tudo, busque fazer o máximo de provas e exercícios que puder. Vá corrigir aquilo que errou, porque à medida que faz as provas vai identificando seus pontos mais frágeis e vai estudar em cima daqueles pontos”, sugere.

O papel de quem está ao redor

Para as especialistas, família e escola têm uma responsabilidade direta sobre como esse período se desenrola para o estudante – para o bem ou para o mal.

“O papel dos pais e da escola nesse momento é dar suporte. Qual é o suporte? Principalmente elogiar o esforço. Ou seja, o que tem que ser reforçado e elogiado não é desempenho, não é nota. É o esforço”, frisa a psicóloga Renata Borja, alertando que a cobrança excessiva costuma produzir o efeito contrário ao desejado: “Esse tipo de comportamento só vai deixar o estudante mais fragilizado e com mais dificuldade de acreditar na capacidade dele”.

A ideia de que lazer é incompatível com dedicação ao Enem é outro ponto que as duas profissionais questionam. “Muitos pais, ao fazer cobranças, passam a ideia de que, se o adolescente quer passar na prova, ele não pode ter lazer. Mas isso não é verdade. Aliás, o que sabemos é que se eles não tiverem lazer é vão ter mais dificuldade de passar”, contextualiza a psicóloga.

Dicas para atravessar esse período com mais equilíbrio

  • Inclua meia hora de atividade física na rotina diária. Prefira exercícios aeróbicos e faça-os antes de estudar – não ao final do dia. O impacto na concentração e no foco é direto.
  • Priorize o sono. Dormir pelo menos 8 horas não é luxo: é condição para que a memória funcione e os conteúdos estudados sejam consolidados.
  • Foque na qualidade do estudo. Estudar menos com atenção plena é mais eficiente do que passar horas diante dos livros sem concentração.
  • Use as provas anteriores como guia. Resolver simulados e questões de edições passadas do Enem ajuda a identificar as áreas mais frágeis – e a concentrar esforço onde realmente faz diferença.
  • Reserve tempo para o lazer. Sair com amigos, descansar e ter momentos de descontração não são distrações: fazem parte de uma rotina sustentável até o dia da prova.
  • Organize a rotina com horários definidos. Estabeleça quando começa, quando termina e quando há pausas. O cérebro não sustenta alta concentração por muitas horas seguidas.
  • Revise os conteúdos ao longo das semanas. Ver um conteúdo e revisá-lo na semana seguinte – e na seguinte – ajuda a fixar o que foi estudado de forma mais duradoura.
  • Ansiedade não é sinal de que vai mal. Sentir nervosismo diante de uma prova importante é natural. O problema não é ter ansiedade, mas entender que ela vai atrapalhar.
  • Busque ajuda. Dificuldade para dormir, queda no rendimento, choro frequente, isolamento e sensação de incapacidade são sinais de que vale procurar apoio psicológico ou médico.
As inscrições para o Enem 2026 ocorrem entre 25 de maio e 5 de junho, exclusivamente pela internet, na Página do Participante do Inep, mediante login com a conta Gov.br.   Fonte: O Tempo   
✓ Link da notícia copiado!