Quais hábitos melhoram a memória e o raciocínio em idosos? Estudo responde
Perda de memória, dificuldade em se expressar, raciocínio lento. Sintomas como esses costumam se tornar mais comuns na população idosa e caracterizam um declínio das funções cognitivas. No entanto, a ciência tem comprovado que mudanças nos hábitos de vida podem melhorar, pelo menos em parte, essa situação.
Um estudo realizado em 11 países latino-americanos, com participação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no Brasil, demonstrou que atividade física, alimentação saudável, treinamento cognitivo, socialização e controle clínico e cardiovascular possibilitam uma melhora maior que 55% da memória, da atenção e das funções executivas dos indivíduos na comparação com aqueles que não realizavam essas atividades de maneira sistemática.
“No entanto, ainda não é possível falar em prevenção de demência, já que o estudo teve duração de dois anos e é necessário mais tempo de seguimento para avaliar o efeito da intervenção sistemática sobre a redução do número de pessoas que desenvolverá alguma forma de demência. Por enquanto, podemos falar em melhora cognitiva, que consiste em uma espécie de reserva para o cérebro”, esclarece Paulo Caramelli, neurologista, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e um dos coordenadores do estudo.
No Brasil, estima-se que o número de pessoas com 60 anos ou mais que vivem com demência passe de 2,46 milhões, número que poderá triplicar até 2050.
A pesquisa “Intervenção multidomínio no estilo de vida para a prevenção do declínio cognitivo em idosos de risco na América Latina” foi a capa da revista “Lancet” de agosto e reuniu 1.065 participantes, sendo 50 da UFMG, com idades entre 60 e 77 anos, distribuídos por centros de pesquisa de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai. A intervenção durou dois anos, e 82,3% dos voluntários concluíram o acompanhamento.
“Buscamos na população possíveis candidatos que atendessem a determinados critérios. Os participantes tinham entre 60 e 77 anos e apresentavam fatores de risco para demência, como queixas relacionadas à memória, pressão alta, diabetes, colesterol elevado, entre outros”, explica o professor.
Após serem selecionados, o grupo foi dividido em dois grupos menores. Um deles seguiu uma intervenção flexível, com orientações gerais de saúde, como a importância de praticar atividades físicas e controlar doenças cardiovasculares e metabólicas.
O outro grupo recebeu uma intervenção sistemática, com acompanhamento nutricional, atividades físicas regulares e supervisionadas, treino cognitivo por meio de um aplicativo com atividades gamificadas e acompanhamento clínico/geriátrico - com exames regulares de saúde.
“Foram feitas avaliações com testes cognitivos a cada 6 meses durante dois anos, por avaliadores que não sabiam a qual grupo pertencia cada participante, e os pesquisadores constataram que o desempenho cognitivo global melhorou 55% ao final do estudo no grupo de intervenção sistemática”, destaca Caramelli.
Veja detalhes sobre as práticas do estudo que fizeram diferença no desempenho cognitivo em idosos:
Atividade física: os participantes se exercitam quatro vezes por semana durante 1 hora por dia. Eles praticaram meia hora de treino de força e meia hora de treino aeróbico, incluindo também exercícios de alongamento e equilíbrio. Tudo isso com supervisão de um educador físico e com intensidade moderada e ajustada para cada participante;
Dieta: combinação da dieta do Mediterrâneo com a dieta DASH (para controle de hipertensão arterial) com foco na redução do consumo de carne vermelha e consumo de peixe, castanhas, frutas, verduras, legumes e gorduras boas - como o azeite de oliva extravirgem e abacate. A dieta também foi pobre em sal para controle da hipertensão;
Treino cognitivo: realização de práticas gamificadas no aplicativo BrainHQ;
Consultas periódicas: envolveu exames de rotinas como a aferição da pressão e exames laboratoriais, como glicose e colesterol;
Socialização: os participantes do estudo tiveram mais contato humano e práticas de socialização principalmente durante a prática de exercícios físicos.
Fonte: O tempo