Quase 91% dos psicólogos creem em Deus
De que forma a religiosidade e a espiritualidade estão presentes entre psicólogos e qual o impacto na prática clínica? Esse é o tema do que parece ser o maior estudo já realizado no mundo sobre o assunto. A pesquisa, realizada entre 2016 e 2018, entrevistou 4.300 psicólogos de todo o Brasil.
Com o título “Religiosidade e espiritualidade dos psicólogos e seu impacto na prática clínica: uma pesquisa nacional brasileira”, o estudo foi publicado com destaque pela American Psychological Association (APA) e tem como autora Pedrita Reis Vargas, psicóloga, doutora e mestre em psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da mesma universidade.
Pedrita investigou as interfaces entre espiritualidade, saúde mental e subjetividade na contemporaneidade e, nesse estudo que faz parte da sua tese de doutorado, concluiu que, “religiosidade e espiritualidade fazem parte da vida da maioria dos psicólogos brasileiros e, de algum modo, atravessam sua prática profissional”. “Ignorar essa dimensão pode empobrecer a compreensão do sofrimento humano, que não é apenas psicológico ou social, mas também existencial”, comenta.
Ao mesmo tempo, diz ela, “a pesquisa evidencia a necessidade de maior preparo na formação em psicologia para lidar com o tema de maneira ética, técnica e baseada em evidências. O estudo abre caminhos para novas investigações sobre formação profissional, manejo clínico da espiritualidade e seus impactos na relação terapêutica. Ainda há muito a ser compreendido nesse campo”.
A pesquisadora observa que o estudo buscou investigar se essas crenças permanecem apenas no âmbito privado ou se influenciam a escuta, as intervenções e a postura profissional dos psicólogos. “Talvez o dado mais expressivo tenha sido perceber que a grande maioria dos psicólogos brasileiros se identifica como ‘religioso’ ou ‘espiritualizado’ em algum grau, jogando por terra a imagem de distanciamento institucional da religião. Pelo contrário: essa dimensão faz parte da experiência pessoal de muitos profissionais”.
Para ela, “a crença em Deus, por si só, não determina um efeito positivo ou negativo na relação terapêutica. O ponto central é a postura ética e a capacidade do profissional de reconhecer suas próprias convicções sem impô-las. Quando o terapeuta tem clareza sobre seus valores e consegue diferenciá-los da prática técnica, isso pode favorecer empatia e sensibilidade diante da vivência espiritual do paciente. O risco não está na crença, mas na falta de reflexão crítica sobre ela”.
O estudo aponta que 62% dos psicólogos acreditam que um poder superior influencia a saúde dos indivíduos. “Não se trata de afirmar que espiritualidade ‘faz bem’ ou ‘faz mal’, mas de reconhecer que ela é uma dimensão relevante da experiência humana e, portanto, não pode ser ignorada na clínica. Esse dado indica que muitos profissionais reconhecem a espiritualidade como uma dimensão que pode impactar a forma como as pessoas vivenciam saúde e sofrimento”, diz a pesquisadora.
E emenda: “A literatura científica já demonstra que, para muitos indivíduos, a espiritualidade pode funcionar como fonte de sentido, pertencimento e enfrentamento. Ao mesmo tempo, também pode estar associada a culpa, medo ou conflito, dependendo de como é experienciada”.
Outro achado interessante foi o fato de que profissionais com mestrado ou doutorado apresentaram maior tendência a negar benefícios da espiritualidade e relatar efeitos negativos da religião sobre a saúde mental. “Esse achado pode estar relacionado ao tipo de formação acadêmica que eles recebem. A pós-graduação stricto sensu tende a aprofundar a especialização em áreas específicas do conhecimento, muitas vezes com forte ênfase metodológica e técnica”, diz Pedrita.
Para ela, “uma formação mais crítica pode tornar o profissional mais atento aos possíveis efeitos negativos da religiosidade, como fundamentalismo, culpa excessiva ou conflitos internos. Trata-se de uma hipótese interpretativa, que merece investigação futura. Embora reconheçam a relevância do tema, muitos psicólogos relatam não se sentir suficientemente preparados para lidar com questões espirituais trazidas pelos pacientes”.
Pedrita finaliza: “Talvez o ponto mais importante seja este: reconhecer a espiritualidade como parte da experiência humana não significa misturar religião com técnica psicológica. Significa reconhecer que o sujeito é complexo e que sua busca por sentido, transcendência ou pertencimento também pode atravessar o sofrimento. Uma psicologia madura não nega essa dimensão – ela a escuta com responsabilidade”.
Espiritualidade auxilia na saúde mental
O psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira-Almeida, fundador e dirigente do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora, foi o orientador do estudo. “Concluímos que a grande maioria dos psicólogos têm religiosidade e espiritualidade e acham isso importante para suas vidas pessoais e na de seus pacientes”.
Mas a maior surpresa, afirma Moreira-Almeida, foi o fato de que os psicólogos que possuem maior treinamento científico e fazem mestrado e doutorado “tendem a conhecer menos e até mesmo a negar dados científicos”. “Eles chegam até a enfatizar os aspectos negativos e a ter menos desejo de treinamento científico sobre o tema. Isso pode revelar que a formação acadêmica recebida gerou o negacionismo das evidências científicas e, por isso, não desejam se aprofundar no tema. É inegável que a espiritualidade tem um impacto positivo sobre a saúde dos pacientes. Não se trata de uma opinião, mas de um dado respaldado por milhares de estudos”.
O pesquisador ressalta que “65% dos psicólogos consideram que religiosidade e espiritualidade são relevantes para o tratamento; 62% acreditam que ela tem impacto benéfico sobre a saúde mental; e 62% acreditam que um poder superior influencia a saúde dos indivíduos, o que mostra que, ao contrário do que se imagina, o conhecimento técnico e científico não exclui a ideia de uma realidade transcendente e uma dimensão espiritual. Outros 68% desejam conhecer mais sobre espiritualidade e como abordar isso na prática clínica”. (AED)
Números
91% dos psicólogos acreditam em Deus
20% não acreditam na vida após a morte
39% afirmam acreditar em reencarnação
54% meditam ou oram diariamente
Fonte: O Tempo