Uso excessivo de Inteligência Artificial reduz atividade cerebral em 47%
Seja para escrever um e-mail, resumir um documento, organizar uma planilha ou buscar informações, a Inteligência Artificial ajuda a economizar tempo no estudo e no trabalho. Tal tecnologia se tornou parte da rotina de milhões de pessoas, sendo utilizada por 17,8% da população mundial em idade ativa, segundo relatório AI Diffusion Report, da Microsoft. Porém, estudos apontam a ferramenta pode reduzir a atividade cerebral.
É o que aponta um estudo do MIT Media Lab, nos Estados Unidos, que analisou como o cérebro reage durante tarefas realizadas com auxílio da IA, como o ChatGPT. Os pesquisadores dividiram voluntários em três grupos: um produziu textos sem qualquer auxílio, outro utilizou mecanismos de busca e o terceiro recorreu à inteligência artificial. Os participantes que usaram IA apresentaram o menor nível de atividade cerebral, com redução de aproximadamente 47% no engajamento neural durante a execução das tarefas.
Segundo o neurologista e professor da Afya Educação Médica de Belo Horizonte, Philipe Marques da Cunha, o resultado observado pelos pesquisadores está relacionado a um fenômeno conhecido como descarga cognitiva. Isso não significa, necessariamente, que a inteligência artificial esteja "enfraquecendo" o cérebro.
"Isso acontece quando o cérebro transfere parte do esforço mental para uma ferramenta externa, como já fazemos ao utilizar uma calculadora para resolver contas ou um GPS para encontrar um endereço. É um mecanismo adaptativo e diferente do que ocorre em doenças neurológicas, como o Alzheimer, em que há comprometimento do funcionamento dos neurônios", explica.
O especialista ressalta que, nesses casos, o cérebro não deixa de funcionar, mas passa a distribuir o esforço de outra maneira.
Substituição do raciocínio
O alerta surge quando a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta de apoio e passa a substituir etapas importantes do raciocínio. Segundo Cunha, algumas funções cerebrais podem ser menos estimuladas quando o usuário simplesmente aceita as respostas produzidas pela tecnologia, sem refletir sobre elas.
"Principalmente as funções executivas, ligadas aos lobos frontais, como planejamento, organização de ideias, tomada de decisão, pensamento crítico e memória de trabalho. Quando a IA substitui essas etapas, o cérebro é menos exigido nessas redes, reduzindo o engajamento ativo no raciocínio", afirma.
Embora ainda não existam evidências de que a inteligência artificial provoque perda permanente da capacidade cognitiva, o neurologista explica que o uso indiscriminado pode favorecer uma dependência cada vez maior da tecnologia.
"Existe um risco potencial de redução da autonomia analítica e do pensamento crítico. Os efeitos sobre memória, atenção e criatividade ainda estão sendo estudados e variam conforme a forma de utilização. O impacto depende muito mais do comportamento do usuário do que da tecnologia em si".
Como usar IA à favor do cérebro
Como benefício, o estudo evidenciou a economia de tempo como vantagem. Os pesquisadores observaram que os participantes que utilizaram IA concluíram as atividades cerca de 60% mais rapidamente do que aqueles que trabalharam sem a ferramenta.
Para aproveitar os benefícios da tecnologia sem deixar de exercitar o cérebro, o especialista recomenda uma postura ativa diante da ferramenta. Isso significa utilizar a IA para organizar informações, revisar conteúdos ou acelerar tarefas operacionais, mas manter a responsabilidade pela análise, pela interpretação e pela decisão final.
Também é importante, segundo ele, questionar as respostas geradas, buscar outras fontes de informação e reservar momentos para resolver problemas sem auxílio tecnológico. "Quando usada de forma ativa e crítica, a tecnologia pode inclusive estimular o funcionamento cerebral em vez de reduzi-lo", conclui o neurologista.
Fonte: O Tempo