Desde que o racha entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) veio a público, o voto feminino voltou ao centro do debate político. Além de representarem mais da metade do eleitorado mineiro, outro fator que as transformam em um ativo decisivo na busca por votos é o fato de que 76,5% das mulheres ainda não escolheram quem pretendem eleger.
Entre os homens, esse percentual cai para 60,9%. Os dados, coletados em junho, são da última pesquisa DATATEMPO (Registro MG-02109/2026). Embora nem todos os partidos tenham indicado os nomes que estarão na disputa, o levantamento perguntou em quem os eleitores votariam caso o pleito fosse hoje.
Segundo a consultora em marketing político Bia Valle, as mulheres são mais criteriosas e isso pode estar entre os motivos para que elas não façam escolhas prematuras. “As pesquisas sobre o voto feminino mostram que elas são mais exigentes e avaliam mais as propostas. Isso pode ser uma das razões para ainda estarem entre os indecisos”, explica Bia.
Para a CEO do Instituto Ideia, Cila Schulman, as mulheres demoram mais a decidir o voto por observarem mais durante a campanha quais serão os compromissos dos candidatos. Em 2025, ela apresentou um estudo destacando que o voto feminino é orientado, sobretudo, pela avaliação de políticas públicas capazes de impactar o cotidiano, principalmente nas áreas sociais. Um dos motivos seria o fato delas utilizarem mais esses serviços.
“A mulher é quem tem contato com a educação pública, porque é ela que leva e se preocupa com a educação dos filhos. Então, ela fica diretamente ligada com as escolas e com a qualidade do ensino público. São as mulheres que têm mais contato com a saúde pública, porque são as que mais cuidam das crianças, dos idosos”, explica a especialista.
Ela tem razão. Em Belo Horizonte, por exemplo, seis em cada dez pessoas atendidas nos centros de saúde eram mulheres. Os dados da Secretaria Municipal de Saúde consideram o período de janeiro a junho de 2026.
O tempo que as mulheres dedicam ao uso desses serviços também ajuda a explicar por que elas tendem a dar mais atenção a propostas voltadas à melhoria dessas áreas. “Por terem uma ligação mais direta com as políticas públicas, elas votam com base em resultados e em propostas concretas”, argumenta Cila Schulman.
Cenário de indecisão
Na avaliação da doutora em ciência política e analista sênior do instituto DATATEMPO, Mariela Rocha, independentemente do gênero, o percentual de incerteza é alto. Não é à toa que 69,1% de todo o eleitorado ainda não decidiu em quem votar. A explicação para isso, segundo ela, é que a população ainda não voltou sua atenção para a disputa eleitoral, mesmo porque nem todas as candidaturas foram oficialmente anunciadas.
O prazo para registro se encerra em 5 de agosto. “Quanto mais distante a definição, menos a população tem condição de definir”, avalia Mariela. “Daqui a pouco os partidos terminam de fazer as suas alianças, os nomes são estabelecidos, as candidaturas são registradas e o cenário começa a ficar mais definido. Supor candidatos é muito complicado,” declara a doutora em ciência política.
Menos "polarizadas"
A diferença dos critérios entre homens e mulheres na hora de escolher em quem votar não é um fenômeno recente, mas vem ganhando proporções ainda maiores desde 2018. É o chamado “gender gap” ou “lacuna de gênero”, conceito que aponta como os dois grupos têm consolidado nas urnas visões de mundo divergentes.
Um estudo apresentado pela CEO do Instituto Ideia, Cila Schulman, aponta que o comportamento eleitoral das mulheres tem funcionado como fator de equilíbrio e despolarização. “Elas entram mais no numa linha de consenso e de compreensão”, conclui Cila.
No caso da segurança pública, por exemplo, embora considerem o tema importante, as mulheres tendem a rejeitar projetos e discursos mais “agressivos” como, por exemplo, a pauta do armamento. Por outro lado, os homens tendem a responder mais a discursos de autoridade. “Neste ano, as mulheres estão muito preocupadas, evidentemente, com a pauta do feminicídio. Então, quando você fala em armamento, para elas é uma ameaça”, diz Cila.
Estratégia de campanha
Os pré-candidatos ao governo de Minas Gerais estão atentos ao eleitorado feminino e os núcleos de comunicação das campanhas já receberam a missão de pensar estratégias direcionadas para conquistar o voto desse público, considerado mais cauteloso na hora de escolher quem vai eleger.
A equipe de Mateus Simões (PSD), que disputa a reeleição, destacou que o tema é “sensível para o governador”. “Ele não pensa as ações para as mulheres mineiras de direita ou esquerda, não existe isso, é para as mulheres que precisam da assistência e proteção, cuidados com a saúde e segurança, políticas para empreendedorismo e independência financeira, não existe polarização, nem na forma de pensar e planejar ações do governo e muito menos na comunicação,” afirma a equipe do governador mineiro.
A equipe do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), por exemplo, aposta no perfil mais progressista como um trunfo para atrair o voto delas. “Ele fez muitas entregas na saúde e na educação”, diz uma fonte do núcleo estrategista.
O grupo responsável pela comunicação de pré-campanha do vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte de Belo Horizonte Gabriel Azevedo (MDB) também confirmou que há uma consciência “não só da importância e peso do voto feminino, mas também das pautas relacionadas às mulheres”.