Bahia cria quase 500 vagas em cursos de medicina em dois anos; mensalidade chega a R$ 12,9 mil
Em dois anos, a Bahia ganhou oito novas universidades autorizadas a oferecer cursos de medicina, somando 568 vagas em graduações recém-criadas e já existentes. As informações são de um levantamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), com base em dados do Ministério da Educação (MEC).
No Nordeste, o estado lidera a abertura de cursos na área entre 2024 e 2025, empatado com o Pará e à frente de Maranhão e Ceará, que tiveram sete autorizações cada. No Brasil, a Bahia aparece em segundo lugar na criação de vagas, com total inferior apenas ao Ceará, que registrou 636 ao todo no mesmo período.
Entre as unidades autorizadas mais recentemente, no Centro Universitário de Ciências e Empreendedorismo (Unifacemp), em Santo Antônio de Jesus, a mensalidade do curso de medicina é de R$ 10.450. Já o Centro Universitário de Excelência de Vitória da Conquista (Unex) cobra R$ 11.655 por mês. Novas graduações também foram abertas em Luís Eduardo Magalhães, Camaçari, Feira de Santana e Jequié. A reportagem não conseguiu contato com as instituições para confirmar os valores cobrados.
Em Salvador, nas faculdades já estabelecidas, os valores variam em relação aos cursos mais novos. Na Unifacs, o custo mensal chega a R$ 12.914, enquanto na Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), no campus de Feira de Santana, a mensalidade é de R$ 12.801,79. A Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP) oferece mensalidades a R$ 7.660, e a Unime, R$ 9.899 já com desconto de pontualidade.
Mais cursos e vagas geram debates
Para Carlos Joel, presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras dos Estabelecimentos de Ensino Superior da Bahia (Semesb), a maior oferta de vagas ajuda a preencher a lacuna de profissionais no interior do estado. “Hoje, nós temos concentração nos grandes centros, principalmente nas capitais, e o médico que faz a formação na capital, raramente volta para o interior”, explica.
Segundo ele, é necessária uma “interiorização” do ensino de medicina no estado, pois em algumas regiões “ainda há uma lacuna muito grande de profissionais”, especialmente de médicos de família voltados a todas as faixas etárias. “Nosso entendimento como sindicato, como instituição de ensino é que ainda é necessário que novas vagas aconteçam e que novos cursos sejam autorizados”, diz.
De acordo com Otávio Marambaia, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), há uma “falácia” de que os médicos não querem trabalhar no interior. Segundo o presidente do Cremeb, cerca de 50% dos médicos da Bahia exercem a função em regiões interioranas. “Isso não se deve à abertura de escolas, mas, sim, a que algumas regiões e cidades estão oferecendo condições adequadas de trabalho. Os médicos vão para onde existem condições adequadas de trabalho”, conta.
Marambaia vê com preocupação a autorização de novas graduações na área no interior. “São cursos ofertados com estrutura pífia, déficit de professores e sem nenhuma condição de campos de estágio. Estão fadados a produzir médicos com insuficiência técnica, ética e pedagógica, com insuficiente treinamento, pois não terão acesso adequado aos pacientes durante a sua formação”, defende.
Já para o presidente do Semesb, “os mesmos professores que vão estar na instituição estatal são os mesmos que vão estar na privada, com mestre, doutor, e isso precisa ser requisito legal para o curso ser autorizado, funcionar e ser reconhecido”, diz. Sobre defasagem da infraestrutura hospitalar para a prática de novos médicos em municípios do interior, Joel argumenta que há uma carência na integração do sistema de educação e saúde.
“O Estado, como propulsor e controlador desse processo, precisa criar mecanismos que possibilitem a toda instituição de saúde estar integrada ao sistema de ensino, buscando o benefício de formação, de educação, que é o que a gente precisa para o país. É preciso democratizar esses ambientes e tornar os hospitais que já existem, tanto privados como estatais, como ambientes de formação [para novos médicos]”, argumenta.
Fonte: Correio