Episódio envolvendo Vini Júnior e Virgínia Fonseca traz à tona discussão sobre o sexo virtual
Recentemente, o nome de Vini Júnior voltou a estampar manchetes, mas não por conta dos gols do astro pelo Real Madrid ou defendendo a Seleção Brasileira. O motivo, agora, era um tanto quanto inusitado. Muita gente ficou chocada quando a modelo Day Magalhães decidiu revelar para a imprensa o teor de conversas íntimas que teria tido com o jogador, à época envolvido em rumores que noticiavam um suposto affair com a influenciadora Virgínia Fonseca, outra que, nos últimos tempos, se viu cercada por casos rumorosos que iam desde a convocação à CPI das Bets para depor como testemunha até a separação midiática do ex-marido Zé Felipe, desmoronando uma espécie de conto de fadas da princesa.
A história, agora, mantinha um pé no terreno fértil da “imaginação”, pois, segundo Day Magalhães, Vini Júnior a teria procurado para fazer “sexo online” enquanto estava na presença de Virgínia, dando ares de uma verdadeira novela rocambolesca à situação, ao modo das tintas exageradas e um tanto esdrúxulas do cineasta Pedro Almodóvar. Fato é que a exposição de uma relação que deveria ser íntima e particular gerou a discussão em torno do termo “sexo online”.
De acordo com uma pesquisa do Datafolha em parceria com a Omens, 44% dos brasileiros encaram o chamado sexo virtual como algo natural, enquanto 31% afirmam que já praticaram sexting (aquelas mensagens de texto picantes com alguns nudes), sobretudo durante o isolamento social provocado pela pandemia de Covid-19. Brinquedos sexuais conectados a aplicativos também estão cada vez mais em voga, registrando um crescimento superior a 200% em vendas nos últimos anos. Assim, a tecnologia parece ter abrido espaço para novas formas de prazer, e, com ela, surgiram novos dilemas.
A psicóloga e sexóloga Graziela Chantal, especialista em conflitos conjugais e reconexão emocional, explica que, do ponto de vista neuropsicológico, “a base do prazer é semelhante, pois tanto o sexo físico quanto o virtual leva o cérebro a ativar os mesmos circuitos de recompensa”. “O cérebro não diferencia o que é virtual e o que é real. O estímulo, seja visual, auditivo ou fantasioso, por meio de fotos, vídeos, áudio ou mensagens eróticas, pode auxiliar na ativação de áreas cerebrais que se aproximam das sensações que acontecem por meio do contato físico”, afiança Graziela. Ou, como diria o escritor Caio Fernando Abreu: “Sexo é na cabeça”.
Comparação
A sexóloga salienta que é importante ressaltar que, “no sexo por meio do contato físico existem muitos estímulos sensoriais, como toque, cheiro, som, movimento e o barulho da respiração”. “Associados, esses estímulos potencializam a excitação, parte importante do ciclo da resposta sexual humana. Já no ambiente virtual, a resposta sexual reage de forma parcial, ocorre a excitação genital e a liberação de alguns hormônios. Como não há troca sensorial, como o toque e o cheiro, a resposta sexual pode ser parcial. O orgasmo é possível, talvez mais rápido e conduzido, seja pela masturbação ou o uso de um sexy toy, o que envolve uma maior criação de conteúdo erótico fantasioso. No contato físico, o orgasmo pode ser mais intenso e mais prolongado, já que tem a troca do contato e o movimento dos corpos”, diferencia.
Apesar das nuances, ela concorda que é necessário ampliar a definição de “relação sexual”. “A ideia de que o sexo está associado somente à penetração o reduz a uma visão heteronormativa e focada na reprodução. Sexo é tudo, existem muitas expressões humanas que ampliam a definição de relação sexual, como o sexo oral, masturbação e também as interações no ambiente virtual. A meu ver, uma relação sexual pode ser definida como qualquer interação erótica que propicia prazer, mesmo sem penetração. Não é o contato físico que define, mas o desejo, o estímulo, a excitação e o envolvimento das parcerias”, avalia a entrevistada.
Nesse sentido, Graziela acredita que o sexo online é “uma boa maneira de aumentar a intimidade sexual de forma saudável, desde que haja consentimento entre as partes”. “Isso ajuda a manter a conexão emocional e sexual, auxilia na criação de conteúdo erótico, melhora o diálogo sexual. Para casais que possuem limitações físicas ou alguma condição médica que impeça o contato físico, ajuda a manter a autoestima sexual e reduz o isolamento afetivo”, defende.
Segundo a especialista, o sexo virtual mostra que “as parcerias precisam cada vez mais melhorar esse diálogo, o que auxilia a imaginação e o próprio conteúdo erótico da relação”. “Sem o toque, o cheiro, os sons, a experiência erótica do sexo virtual precisa da criação da fantasia, não tem pele com pele, mas a palavra se torna parte importante. O prazer vai surgir do diálogo sexual por meio da imaginação e da conexão, por meio da presença erótica”, sublinha.
Limites
Como em toda e qualquer relação humana existem, porém, diversas implicações. Graziela afirma que “quando há comunicação e consentimento entre as parcerias, o sexo virtual pode ser uma forma legítima de intimidade”. “Em relacionamentos monogâmicos, a implicação ética passa pela falta de acordo e de transparência entre as parcerias. A questão é o segredo, porque fere a confiança e pode ser compreendida como infidelidade. Se há consentimento, o sexo virtual pode ajudar a fortalecer o vínculo, mas, se vivido de forma individual, a ideia de exclusividade quebra a confiança”, pondera.
Outra questão delicada passa pela “exposição de imagens, vazamento de fotos íntimas, chantagem emocional e dependência de estímulos genitais”, sendo que os primeiros tópicos correspondem a crimes previstos no Código Penal. “A consciência, o consentimento e o cuidado com a privacidade diferencia uma experiência saudável de uma negativa. Como possíveis recompensas do sexo virtual, há a possibilidade de explorar mais fantasias e desejos com segurança física, manter a intimidade afetiva sexual em relacionamentos à distância, aumentar a cumplicidade entre as parcerias e melhorar o diálogo sexual”, enumera a sexóloga.
Pesados os prós e contras, Graziela não tem dúvidas de que é pertinente validar a experiência do sexo virtual. “A sexualidade humana não se limita ao contato corporal. Do ponto de vista psicológico e fisiológico, o sexo virtual pode acionar o desejo, a excitação e o prazer, assim como no sexo presencial. Ainda que por meio de uma tela, se há uma intenção erótica, prazer e intimidade emocional, existe uma relação sexual e conexão. Temos que levar em consideração que o prazer também pode ser fruto da imaginação”, arremata.
Inteligência Artificial acionando desejos
Para a sexóloga Graziela Chantal, quando se trata de sexo, seja ele presencial ou mediado por telas, “o mais importante é compreender o que a experiência significou para quem a viveu”. Atualmente, com o avanço tecnológico e o frenesi que ronda a Inteligência Artificial, ela pontua que “é cada vez mais possível simular interações afetivas e sexuais, o que não impede de haver excitação, prazer e envolvimento emocional simbólico, ao contrário”.
Todavia, é preciso estar atento que este campo, como outro qualquer, não está imune à complexa cadeia de relações humanas com suas moralidades. “Se a pessoa está em um relacionamento monogâmico, a questão passa pela quebra de contratos estabelecidos entre as partes, já que, se uma delas se sente traída e enganada, teremos caracterizada uma infidelidade simbólica. Ainda que o sexo virtual ajude nas fantasias e no autoconhecimento, é preciso haver transparência entre as partes envolvidas”, finaliza Graziela.
Fonte: O Tempo