Quanto fatura um maquiador de cadáveres? Profissionais ganham a vida trabalhando com a morte – Simões Filho Fm
por Redação

Quanto fatura um maquiador de cadáveres? Profissionais ganham a vida trabalhando com a morte


 
 
 

No balcão estão depositados pó compacto, pincéis e batons. As “clientes” que recebem o trato no visual, entretanto, não vão para um casamento ou festa de formatura. Os produtos são usados na necromaquiagem – técnica utilizada para preparar o corpo de uma pessoa falecida para o velório, a fim de proporcionar uma aparência mais saudável e serena. Essa é uma das atividades realizadas diariamente por Vanessa Aparecida Ferreira, de 33 anos, que trabalha como auxiliar em embalsamamento na Funerária Santa Casa BH há três anos.

Apesar do preconceito que enfrenta quando revela sua profissão, escutando comentários negativos inclusive dentro da família, Vanessa diz que sempre achou esse universo interessante e acredita que sua atividade traz conforto aos enlutados. “A maquiagem suaviza a aparência e faz diferença na hora da despedida. Muitos corpos chegam deformados e nossa técnica faz com que eles voltem a ficar parecidos como eram antes de morrer”, destaca.

Além de neutralizar a palidez e suavizar manchas, a necromaquiagem também consegue resolver problemas mais profundos por meio da reconstituição. Com um tipo de massa específica, o profissional reconstrói partes do rosto que foram danificadas por causa de acidentes ou tumores. “Muitos clientes chegam aqui achando que o velório seria de caixão fechado. Mas o resultado fica tão bom, que a cerimônia acaba acontecendo com o rosto do cadáver à mostra. É uma forma de devolver a dignidade à família”, aponta.

Já ouvi comentários negativos de familiares, mas amo o que faço”, afirma Vanessa. Foto: Flávio Tavares/O Tempo

 

E a função de Vanessa vai além disso. Como auxiliar em embalsamamento, ela também é responsável pela ornamentação dos corpos, o que inclui a vestimenta e a colocação das flores no formato escolhido pela família. É da sua responsabilidade ainda a tanatopraxia – um conjunto de técnicas de higienização e conservação do corpo. Os procedimentos incluem a injeção de fluidos conservantes para retardar o processo natural de decomposição, permitindo que a família tenha mais tempo para a despedida.

“Muita gente, por preconceito, acha que somos insensíveis por trabalharmos com corpos. Isso não é verdade. Não é um trabalho frio, enxergamos que há um indivíduo ali. Fazemos com todo carinho, amor e cuidado para que essa despedida aconteça da forma mais afetiva possível”, defende.

Vanessa é apenas uma dos muitos profissionais da capital mineira que enfrentam o tabu de “trabalhar com a morte” e fazem desse universo o seu ganha pão. De acordo com Stênio Afonso, gerente da Funerária Santa Casa BH, a empresa conta com cerca de 100 funcionários atualmente e nem sempre é fácil achar mão de obra.

“Muitos ficam receosos de trabalhar no ramo, têm um certo preconceito por não entender como funciona. Em compensação, os que entram gostam muito do que fazem e raramente desistem. Nossa rotatividade acaba sendo baixa. Temos funcionários que estão com a gente há mais de três décadas”, comemora.

Ele também revela que o salário médio do “mercado fúnebre” varia entre R$ 2 mil e R$ 3.500. A função de auxiliar de embalsamamento , como é o caso de Vanessa, paga cerca de R$ 2.100. “Não é um salário alto, mas o trabalhador também recebe por insalubridade e adicional noturno. O tempo de casa também pode aumentar o valor”, explica Stênio.

O rei das coroas

Porém, engana-se quem pensa que todos os colaboradores de uma funerária lidam diretamente com corpos. É o caso de Gustavo Henrique Gomes, 37, que trabalha com montagem de coroas de flores e comanda uma equipe de quatro pessoas. Ex-funcionário de uma gráfica, ele encontrou seu “nicho” dentro do mercado fúnebre.

“Desde o início eu tinha consciência de que não trabalharia com cadáveres. Não tenho estômago para ver corpos abertos, estou feliz no setor em que atuo”, diz.

Gustavo não gosta de lidar com corpos, mas se encaixou bem na montagem das coroas. Foto: Flávio Tavares/O Tempo 

 

O trabalho de Gustavo e sua equipe é essencial para que cada família tenha a coroa de flores exatamente igual à que foi escolhida entre as opções disponíveis no book da funerária. Além da montagem, Gustavo também é responsável por planejar o estoque que fica guardado em uma câmara refrigerada.

“Isso é essencial para que não faltem flores durante a noite ou nos fins de semana. Tentamos trabalhar com uma média de 12 coroas em estoque geralmente. Não podem ser muitas para que não estraguem, mas também não podem ser poucas a ponto de faltar. Tem toda uma logística por trás”, aponta.

Uma das funcionárias do setor é Riane Eduarda Elias, 24, que já passou por outras funerárias e está na Santa Casa há menos de um mês. Ao contrário de Gustavo, ela afirma que gosta de trabalhar com corpos e pretende voltar para a tanatopraxia futuramente. “Estou gostando de aprender uma nova função, mas também gosto muito da parte de preparar os cadáveres”, diz.

Riane, do setor de coroas, gosta de trabalhar com corpos e pretende voltar para a tanatopraxia. Foto: Flávio Tavares/O Tempo 

Apoio em quatro rodas

Outra função essencial dentro deste mercado é a de motorista. São eles que retiram os corpos das residências ou do Instituto Médico Legal (IML) para que sejam devidamente preparados para o velório. Na Funerária Santa Casa, são 28 profissionais se revezando em quatro turnos. Um deles é Adalberto Gomes dos Santos, 46, que está na empresa há pouco mais de dois anos. Para ele, a profissão vai muito além do transporte.

Adalberto afirma que o seu trabalho vai muito além do transporte e envolve também acolhimento. Foto: Flávio Tavares/O Tempo 

 

“Sempre tentamos conversar com os parentes enlutados e prestar um apoio também. Principalmente quando o trajeto é mais longo, é fundamental acolher aquele parente que está acompanhando o corpo. A viagem mais longa que fiz foi para São Luís, no Maranhão. A pessoa veio fazer tratamento em BH e acabou falecendo”, conta.

O mestre da orquestra

Com tantas funções distintas, que precisam funcionar perfeitamente para que nada saia errado, é essencial que alguém tenha a visão geral do todo. Como um “maestro da orquestra fúnebre”, Alexandre Alberto Ferreira, 40, é supervisor técnico da Funerária Santa Casa e está por dentro das funções de todos os colaboradores. É ele quem checa se tudo está sendo executado corretamente e corrige eventuais erros.

Há 13 anos na empresa, ele começou como ornamentador de corpos e foi subindo aos poucos até alcançar o posto que ocupa hoje. Ex-motoboy, ele disse que sempre teve curiosidade em relação a esse universo. “Cresci na periferia, onde os velórios eram feitos em casa e eu catava flores na cerca para colocar no caixão. Para mim é algo natural e que explica um pouco essa vontade que sempre tive de trabalhar na área”, relata.

Alexandre: de motoboy a supervisor e professor da Funerária Santa Casa BH. Foto: Flávio Tavares/O Tempo 

 

Ele também é responsável por ministrar o curso de tanatopraxia e necromaquiagem aplicada da Faculdade de Saúde Santa Casa BH. Realizado bimestralmente, o curso tem carga horária de 65 horas (40 teóricas e 25 práticas) e tem custo médio de R$ 2.600. O curso é essencial para quem deseja realizar a função e atrai pessoas de outras cidades.

“Temos alunos que querem entrar na área, mas também há muitos profissionais do interior que já trabalham em funerária, mas precisam do curso por ser uma exigência da Vigilância Sanitária. Outra curiosidade é que a maioria é mulher. Em uma turma de 20 alunos, cerca de 15 são do sexo feminino. Não sei ao certo o motivo”, detalha.

Ato final 

Passados todos os ritos de despedida, chega a hora de sepultar o corpo. É nesse momento que entram os coveiros, profissionais que muitas vezes são “invisíveis” aos olhos da sociedade, mas que prestam um serviço fundamental em um momento que será sempre lembrado por familiares e amigos da pessoa que faleceu.

Um dos profissionais desse ramo é Edinaldo Batista de Souza, 50, que trabalha há quase dois anos no Cemitério e Crematório Parque da Colina, do Grupo Zelo. Após trabalhar em uma cozinha de restaurante, decidiu se arriscar como coveiro e tem gostado da experiência.

“Cozinha é algo muito estressante, a pressão psicológica é grande e o risco de acidentes com facas também. Cemitério é mais tranquilo, fazemos nossa função com mais calma. O salário é basicamente o mesmo do emprego anterior, mas psicologicamente é melhor para mim”, compara o profissional – que já chegou a realizar 16 sepultamos em um único dia.

Apesar de estar gostando da nova função, ele não nega que há desafios. “Tem a questão da chuva, que gera lama e dificulta muito os sepultamentos, e também a parte psicológica. Tenho quatro filhos e houve uma vez que uma criança jogou balas no caixão da mãe. Aquilo me fez chorar, imaginei meus filhos no lugar daquele menino. Mas é algo que a gente vai se adaptando aos poucos e aprende a lidar”, finaliza.

 

Fonte: O Tempo


 
 
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *