Aniversário do Pix: tudo sobre o sistema que revolucionou a economia brasileira – Simões Filho Fm
por Redação

Aniversário do Pix: tudo sobre o sistema que revolucionou a economia brasileira


 
 
 

Há cinco anos, quando o mundo enfrentava uma pandemia que impactou a economia em diversos níveis, o Brasil colocava em prática um novo sistema de pagamento: o Pix. A proposta revolucionou a forma como o dinheiro circula no país e caminhou lado a lado com o avanço dos serviços digitais no Brasil. Em pouco tempo, o sistema de transferência em tempo real foi absorvido quase integralmente pela população. No seu aniversário de 5 anos, neste domingo (16/11), a sensação é que o Pix sempre existiu, de tão familiarizado que ficou o brasileiro.

O volume de transações por meio do Pix tem uma trajetória de crescimento exponencial. Em 2020, com um mês e meio de existência, foram 2,15 bilhões de transações, conforme dados do Banco Central. Depois, em 2021, foram registradas 9,4 bilhões, seguindo um crescimento de 578,7% até 2024, quando registrou 63,8 bilhões.

O ano de 2025 caminha para mais um recorde: já são 64,7 bilhões de transações entre 1º de janeiro e 31 de outubro. Em 6 setembro, o sistema de pagamentos ainda registrou recorde: 290 milhões de transações, movimentando R$ 164,8 bilhões, em apenas 24 horas.

O Pix facilitou pagamentos e transações financeiras pessoais, fomentou a criação de pequenas empresas e estimulou a inovação. “Nosso empreendimento só é viável pela existência do Pix”, afirma Fábio Yoshida, 43 anos, dono da loja Dos Gatos, no edifício Arcangelo Maletta, no Centro de Belo Horizonte. A loja, um “autosserviço de chopp”, foi criada em 2023 e não tem funcionários. Os próprios clientes pagam e se servem da quantidade desejada.

“Eu queria trabalhar com bebidas, mas nunca quis ser dono de bar ou ter funcionários. O Pix dá uma segurança para nós e para os clientes. O valor cai na hora e também é mais fácil de estornar, caso aconteça algum problema. O cartão de crédito é mais complexo. Além das taxas, é preciso inserir mais dados. Pode criar uma resistência por parte dos consumidores”, aponta ele.

São seis torneiras, com chopes e drinks, com valores que variam entre R$ 23 e R$ 80 o litro. O cliente acessa o sistema por meio de um QR Code, que abre uma página parecida com um aplicativo. Após preencher alguns dados, paga o valor desejado e se serve. “É como se fosse uma bomba de gasolina. Você coloca o valor e abastece como quiser. Isso te dá a liberdade de provar um pouco de cada uma”, compara ele.

Denise Ramos Guimarães, 43, esposa de Fábio e parceira no negócio, aponta que o pagamento via Pix também facilita na identificação do perfil de consumo. “Sabemos que a maioria dos nossos clientes compra por volta de 19h, após o trabalho, para voltar para casa tomando uma cerveja sem precisar sentar em um bar. Também temos aquele público da ‘saideira do Maletta’, por volta das 23h. São pessoas que estão saindo dos bares e passam para pegar uma bebida antes de deixar o prédio”, afirma ela.

Débora Souza, analista do Sebrae, afirma que uma das grandes vantagens do Pix é a liquidez imediata, um benefício para empresários que nem sempre têm capital de giro alto. “O fato de o dinheiro cair na hora é importante para que os empreendedores consigam arcar com os custos do seu negócio, como aluguel ou pagamento de funcionários”, explica.

Ela também compara a tecnologia com outras modalidades de pagamento. “O dinheiro envolve a questão da segurança e o cartão de débito tem a taxa da maquininha. Já o crédito demora a se transformar em dinheiro no bolso e, caso o empreendedor queira antecipar este recebimento, precisa pagar um valor a mais. O Pix ajuda a economizar custos, que podem ser investidos no negócio.”

A especialista aponta ainda que o Pix facilita o acesso a crédito ou empréstimos para os pequenos empresários – uma vez que a tecnologia aumenta a rastreabilidade e gera lastro. “Com pagamentos em dinheiro, é mais difícil comprovar o rendimento da empresa. O Pix gera comprovantes e aumenta a credibilidade junto ao banco”, garante.

Apesar das vantagens, a especialista recomenda cautela na gestão financeira. “É importante manter a consciência de que aquele dinheiro que está entrando é da empresa e não pode ser confundido com as contas pessoais”, complementa.

“Todo mundo usa Pix”

O sistema de pagamentos instantâneos se popularizou muito rápido. Com pouco tempo, o brasileiro aderiu à ferramenta. Hoje são mais de 178 milhões de usuários ativos e mais de 900 milhões de chaves cadastradas (isso porque muitas pessoas têm duas ou mais chaves em diferentes instituições).

Com a adesão em massa, quem demorou para ter uma chave Pix acabou se rendendo. Esse é o caso da manicure Geralda Martins dos Santos, de 69 anos. Dinha, como é conhecida, conta que, aos poucos, a pergunta “tem Pix?” se tornou cada vez mais frequente, até que, em 2022 (dois anos após a criação do sistema), ela fez uma chave para conseguir receber os pagamentos.

“Todo mundo falava: Dinha, você tem que fazer Pix, ninguém sai com dinheiro mais. Eu demorei um pouco para fazer, e todo mundo perguntava se eu tinha. Falavam que era mais fácil e mais prático. Aí, eu criei a chave só por causa disso”, relembra.

Manicure há 45 anos, Dinha acredita que o sistema facilitou muitas coisas e conta que ela também passou a pagar despesas com Pix. Entre suas clientes, apenas uma não usa o sistema. “Só uma cliente, que é mais idosa, ela me paga em dinheiro, mas é a única”, revela.

“Gestação” do Pix começou em 2016

“Parece que [o Pix] é tão do nosso dia a dia, virou tão corriqueiro que a gente nem lembra que um dia viveu sem isso”, comenta o economista Murilo Rabusky, diretor de negócios na fintech Lina Open X. O especialista participou de um grupo de trabalho que analisou a viabilidade do Pix em 2016. Naquela época, o embrião do novo sistema de pagamento já estava formado.

“Já existia uma análise da experiência internacional em relação a sistemas de pagamento instantâneo. Esse grupo que a gente participou analisou no nível técnico o protocolo de estruturação de dados do Pix em um padrão internacional para sistemas de pagamento”, explica.

O grupo a que ele se refere é o Subgrupo ISO 20022-Transferência de Fundos (SG-ISO20022-TF), que, no âmbito do GT-Mensagens-SPB, tinha o objetivo de avaliar se o padrão internacional de comunicação ISO 20022 supria as necessidades dos negócios existentes no cenário brasileiro. Naquele momento, a ideia do Pix já existia, faltava testar a aplicabilidade do sistema.

O professor de economia monetária Paulo Machado Feitosa explica que o ambiente para a criação do Pix já havia sido preparado muito antes. “O Pix é o auge de um processo que foi iniciado nos anos 2000 pelo Banco Central e que começou com a criação do chamado Sistema de Pagamentos Brasileiros (SPB)”, diz.

Pix surgiu para democratizar a bancarização

O professor lembra que a proposta de implementar um sistema de pagamento instantâneo e gratuito, ao menos para pessoas físicas, vinha da vontade de solucionar um problema: a dificuldade de acesso aos bancos pelas camadas mais vulneráveis da população. Há muitos anos, era comum o cidadão receber salário, sacá-lo integralmente e guardá-lo em casa, em dinheiro vivo – o que, entre outros problemas, era um risco no quesito segurança.

“Na época que só existiam os grandes bancos, com muitas agências, e a gente brincava que até para pessoa entrar entrar na agência e respirar, ela já estava pagando o tarifa”, diz o professor. “Numa transação de R$ 40, muitas vezes o TED tinha uma tarifa de R$ 8, quer dizer, você já perdia 20% nessa brincadeira”, recorda Feitosa. E o resultado disso era um só: a população preferia pagar todo mundo em dinheiro, especialmente prestadores de serviço como manicure, cabeleireiro, chaveiro, pintor, entre tantos outros.

Além disso, uma parcela grande da população não tinha mais de uma conta em banco, acesso a investimentos ou relacionamento com as instituições financeiras. O Pix veio para resolver isso e democratizar a bancarização. Nesse sentido, faz parte da atmosfera de nascimento do Pix o avanço das fintechs – empresas de tecnologia que prestam serviço financeiro.

Feitosa explica que o Banco Central percebeu que, com o avanço tecnológico, as pessoas já faziam muitas coisas pelo celular, e o sistema financeiro precisava se adaptar. Foi quando as fintechs foram regulamentadas pelo operador financeiro, em 2013. “A pessoa abre a conta e não precisa de agência física. Ela, no máximo, ganha um cartão para poder fazer as operações de crédito quando necessário, mas é tudo praticamente por conta dos serviços digitais”, detalha o professor.

Foi um passo importante para que, depois, com a criação do Pix, essas empresas tivessem um salto de crescimento. Isso porque muitas pessoas criaram contas em bancos digitais só para ter a chave Pix. E, a partir daí, muita coisa se transformou. Nesse movimento, o banco digital Nubank, por exemplo, cresceu tanto que, em outubro, se tornou a empresa mais valiosa na B3, a bolsa de valores brasileira, atrás apenas da Petrobras.

E a intenção do BC de bancarizar a população – que começou lá atrás – se tornou uma realidade. A estratégia deu tão certo que o Pix se tornou referência para o mundo inteiro. O sistema de pagamentos chamou atenção de outros países e tem sido elogiado por especialistas da área. O economista estadunidense e vencedor do Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, por exemplo, publicou um artigo em que elogia o Pix e diz que “outras nações podem aprender com o sucesso do Brasil no desenvolvimento de um sistema de pagamento digital”.

Bancos tradicionais também ganharam

Não foram só as fintechs que viram vantagens no Pix. Apesar de perder o lucro com taxas, como as cobradas para fazer um DOC, que deixou de existir em janeiro de 2024, bancos tradicionais, antes resistentes, viram muitas possibilidades com o Pix. O professor Paulo Machado Feitosa conta que os dados gerados pelo Pix são extremamente úteis às instituições financeiras.

“Bancos também passaram a perceber que eles teriam uma vantagem muito grande. Aquelas informações, todas digitais, vão para um arquivo. O banco tem conhecimento e pode tratar esse arquivo. Eles começaram a perceber o perfil dos clientes”, explica. Isso permite a personalização dos serviços e o oferecimento de produtos.

Segurança ainda é desafio

O Pix cumpre seu papel de bancarizar a população e facilitar as transferências de valor, mas a segurança das transações ainda é ponto de atenção. Com o advento do Pix, golpistas “digitalizaram” os golpes e aproveitaram brechas para conseguir cometer cada vez mais fraudes.

“Não é o advento do Pix o causador principal da fraude. Ele só é o meio”, frisa o especialista em tecnologia financeira Gustavo Siuves, CRO da infratech Azify. Ele explica que as facilidades para abrir contas em fintechs, por exemplo, fizeram com que muitos golpistas abrissem contas falsas para cometer golpes online e não serem pegos. “Você tinha muito documento falso, muita pessoa se passando por outra”, lembra.

“A partir do momento que um fraudador abre a conta, ele consegue fazer o que ele quiser e aí ele faz Pix, ele faz TED, ele paga conta. É que o Pix é o jeito mais fácil de burlar, porque é instantâneo, cai na conta e ele já tira dali e não tem como mais você correr atrás”, explica. Hoje, porém, as financeiras estão “fechando o cerco”, e tornando os processos bem mais complicados para pessoas mal intencionadas.

E os golpistas miram não apenas pessoas físicas, mas jurídicas também. Cabe às empresas adicionar camadas extras de autenticação para acesso às contas e barrar “comportamentos estranhos”. Uma transação feita de PJ para PF em uma empresa que só se relaciona com PJ é algo estranho, por exemplo. Se feita às 3h, mais ainda! “Acredito que precisa ter essa regra [de bloqueio] também dentro do arcabouço do Pix, mas as empresas já podem criar algum tipo de mecanismo para poder barrar essa tentativa”, sintetiza.

 

Fonte: O Tempo

 


 
 
 

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