Correr na chuva ou não, eis a questão
Imagine a cena. Você se arruma todo com roupas de ginástica, calça um tênis apropriado, prepara sua playlist de músicas no celular e está pronto para sair para correr. Quando coloca os pés no asfalto, percebe que o dia está mais escuro que o normal. O som da música é abruptamente abafado por um forte estrondo de trovão e, de uma hora para a outra, gotas d’água começam a cair do céu. Existem duas possibilidades: voltar para a casa e culpar a chuva pela perda de um treino ou ignorar o “toró” e ir correr assim mesmo.
Para muitos, correr na chuva é um suplício: dá preguiça, dificulta a visão, a roupa e os calçados ficam mais pesados. Mas, para outros, o fenômeno natural comum nesta época do ano dá um “algo a mais” ao desempenho e até garante uma melhora na performance. É o caso da analista contábil Walquiria Araujo Souza, de 36 anos. Para ela, a sensação da chuva caindo enquanto se exercita é motivadora. “Estava em uma corrida em novembro, e já havia chovido bastante ao longo do dia. No início da prova, a chuva cessou, mas bem após a metade da prova choveu lindamente. Quando eu estava já cansada, achando que não fosse conseguir, ela veio e renovou minha energia”, relembra.
Já a jornalista Jancy Torquato, de 41 anos, vê a chuva como grande empecilho. “Detesto! Sou da Bahia e gosto mesmo é de sol e calor. Além do incômodo, tem a questão da visibilidade e o risco de pisar em algum buraco e me machucar”, justifica a atleta. Para ela, se começar a garoar durante o treino, pode até chegar a finalizá-lo; mas, se a chuva for forte, não tem jeito, é dar meia volta e ir embora. “Nunca começo a correr na chuva!”, enfatiza.
No caso da suporte técnico Isadora Fenelon, de 22 anos, a chuva reduziu a sensação de cansaço e a ajudou a concluir a terceira meia maratona disputada por ela. “Estava em São Paulo e choveu bastante. Não era aquela chuva de pinguinhos, era uma chuva que doía, sabe? Aquele pingo que dói; chuva, chuva mesmo. Mas foi uma experiência transformadora, porque, apesar da dificuldade de correr aqueles 21 km, a chuva me ajudou a perceber que eu conseguia muito mais do que a minha mente achava que eu podia, sabe? A chuva foi tão gostosa que eu não tive tanto a percepção de esforço”, lembra.

Benefícios e malefícios dependem mais do clima
Para a medicina, associar a atividade física com a chuva pode causar impactos, positivos e negativos. “No calor, pode ser até vantajoso, enquanto, no frio, pode ser prejudicial. Contudo, não há evidências científicas de que correr na chuva seja mais saudável ou melhore o rendimento esportivo. O efeito imediato da chuva depende do ambiente térmico”, destaca a coordenadora do serviço de medicina do exercício e do esporte da Rede Mater Dei de Saúde, Carla Tavares Felipe Vieira.
De acordo com a especialista, a chuva modifica a termorregulação, ou seja, em condições quentes, reduz a temperatura corporal, a frequência cardíaca e a resposta metabólica durante a corrida. “Isso sugere menor estresse térmico e potencial redução de fadiga por calor durante a atividade”, explica.
Já em ambientes frios com chuva, há maior perda de calor corporal, maior consumo de oxigênio, maior lactato e maior percepção de esforço
Pequenos Cuidados são fundamentais para correr na chuva
A psicóloga Larissa Rezende Spuri Morais Mendes, de 41 anos, também faz parte do time dos que não gostam de correr debaixo de chuva. “Evito ao máximo e, quando vou, é reclamando”, garante. Os principais motivos são a sensação da roupa grudando no corpo e do tênis ensopado e pesado e também o receio de cair. “Se for prova, eu finalizo, mas, se for treino, sigo até o carro para ir embora”, afirma.
Para a coordenadora do serviço de medicina do exercício e do esporte da Rede Mater Dei de Saúde, Carla Tavares Felipe Vieira, o problema com as roupas excessivamente molhadas pode ir além do incômodo. “Roupas e meias molhadas aumentam a fricção na pele, favorecendo assaduras e bolhas, que é um problema comum em corredores”, alerta. “Condições chuvosas também podem diminuir a visibilidade do corredor e de veículos, aumentando o risco de quedas e colisões dependendo do local onde se está correndo”, pontua a médica.
Dicas importante
Evite tempestades, relâmpagos ou chuvas muito fortes. Em tempo frio, use camadas adequadas que mantenham calor e casaco impermeável para não reter água excessivamente. Cuidado com o piso, que pode estar escorregadio. Evite treinos intensos. Usar calçado com boa tração. Após a corrida: remover roupas molhadas rapidamente, se aquecer, se alimentar e se hidratar.
Fonte: O Tempo