Com a menor taxa de desocupação já registrada no país, quem são os desempregados do Brasil? – Simões Filho Fm
por Redação

Com a menor taxa de desocupação já registrada no país, quem são os desempregados do Brasil?


 
 
 

O Brasil nunca teve uma taxa de desemprego tão baixa. No terceiro trimestre deste ano, ela chegou a 5,6%, o menor índice da série histórica mensurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 2012. Enquanto isso, há uma camada de trabalhadores que não consegue escapar da desocupação mesmo com sucessivas quedas do número. No país que se aproxima do pleno emprego, quem são os desempregados?

Não é surpresa para analistas do mercado que a resposta espelhe outras desigualdades sociais do país. Uma lupa em dados de escolaridade, gênero e raça demonstra que, na fila do emprego, quem tem menos anos de estudo, mulheres e pretos ficam para trás. A taxa de desemprego para quem tem ensino médio incompleto sobe para 9,8%. Entre homens, ela é de 4,5%, abaixo da média nacional, e entre mulheres sobre para 6,9%. É o mesmo percentual de desocupação dos trabalhadores pretos

Taxa de desocupação no Brasil por cor ou raça (%)

Taxa de desocupação no Brasil por gênero (%)

A situação se repete em Minas Gerais, onde o índice também é mais alto em todos esses grupos. “O contingente ainda desempregado acompanha as desigualdades do cenário nacional. Entre os desempregados de Minas, a maioria é jovem, na faixa dos 18 aos 29 anos. As mulheres estão entre os grupos mais afetados, porque enfrentam obstáculos mais estruturais, como a responsabilidade doméstica. Em termos de cor, pessoas pretas e pardas tendem a ter uma taxa de desocupação mais elevada, o que reflete questões históricas regionais e nacionais”, elabora a diretora de monitoramento e articulação de oportunidades de trabalho da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), Amanda Carvalho.

Hoje desempregada, Isamara Ferreira, de 30 anos, incorpora essa realidade. Ela se mudou do interior de Minas para Belo Horizonte a fim de dar oportunidades melhores para os três filhos, de 10, 5 e 2 anos, que cria sózinha, e conta que está há pelo menos um ano e meio em busca de um emprego que permita conciliar o cuidado com as crianças. “Está muito difícil. Quando a gente encontra serviço, é em horários de exploração, praticamente. Não é porque precisamos trabalhar que precisa ser como escravos. Eu quero um serviço para pagar um estudo para os meus filhos no futuro. Mas não adianta ter que trabalhar dobrado, triplicado, para ter que pagar alguém para buscar na escola e olhar menino”, diz.

O analista da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, William Kratochwill, pondera que há mudanças em curso no mercado – mas graduais. “Como são problemas de estrutura, sociais, de como as pessoas identificam as outras, a mudança é algo lento, um processo moroso, que só se resolverá com muito tempo. As mulheres são mais qualificadas, então pode ser que isso suplante a discriminação [no futuro]”, diz.

O pleno emprego chegou?

Uma taxa nula de desemprego não é possível – afinal, mesmo com uma população majoritariamente empregada, há trabalhadores em intervalo de mudança de emprego, por exemplo. Na prática, uma taxa próxima de 5% costuma ser considerada um cenário de pleno emprego, e não há expectativa de que ela baixe mais do que isso no Brasil.

Há consenso de que, quanto menor o número, melhor. Ele esconde nuances, porém, alerta a diretora adjunta do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Patrícia Pelatieri. Ela destaca o alto nível de informalidade dos trabalhadores brasileiros – 38% são informais, de acordo com a PNAD Contínua. A subutilização, condição em que o trabalhador trabalha menos horas do que gostaria, é de 13,9%.

“Estamos falando de um volume de trabalhadores ocupados, mas em condições de trabalho muito precárias. Podemos dizer que estamos com uma taxa de desemprego aberto muito baixa, o que é ótimo. Mas temos que olhar esse contexto de forma mais ampla. Os problemas do mercado de trabalho vão além dos seis milhões de desempregados do desemprego aberto”, diz ela.

Acrescenta-se ao problema o número de desalentados, pessoas que gostariam de ter um emprego, mas desistiram de procurar por diferentes motivos. Eles somam 2,6 milhões de pessoas – uma queda de 16,1% em comparação aos 3,1 milhões do mesmo período de 2024.

Algumas empresas lançam suas próprias iniciativas para atrair minorias, como vagas exclusivas para mulheres ou negros. Sendo o problema uma questão estrutural, Pelatieri enfatiza o papel do Estado em mitigá-lo. “Boa parte das empresas têm algum tipo de incentivo ou isenção fiscal. Seria necessário pensar que qualquer isenção ou incentivo deveria vir casado com o compromisso de superação das desigualdades no mercado de trabalho. Empresas beneficiam do crédito de bancos públicos sem nenhum compromisso de manutenção de emprego ou redução de desigualdade”, exemplifica.

Vagas abertas sem trabalhadores

O mercado tem duas pontas que não se conectam: de um lado, uma fatia de trabalhadores com dificuldade em conseguir um emprego e, do outro, diferentes setores que reclamam da falta de mão de obra e não conseguem preencher vagas. Diretor executivo da Rede Cidadã, entidade de assistência social para inserção no mercado de trabalho, Fernando Alves argumenta que as empresas têm adaptado as vagas para tentar preencher os postos – sem sucesso. “A necessidade por recursos humanos no Brasil está tão premente que as empresas baixaram muito o nível de exigência conhecido até cinco anos atrás. Sobretudo no setor do varejo, existem milhares de vagas abertas a ser preenchidas”, diz.

Em algumas delas, a baixa escolaridade e a falta de formação técnica são barreiras para os trabalhadores. Mas, mesmo naquelas sem essas exigências, há obstáculos dos dois lados, argumenta Amanda Carvalho, da Sedese. “Temos outros fatores, como as expectativas dos trabalhadores sobre salário e condições de trabalho. Quando eles se deparam com remuneração baixa e jornadas extensas, mudam a rota e procuram alternativas mais vantajosas”, analisa.

Enquanto o emprego não chega, o orçamento de Isamara depende do benefício de R$ 850 que ela recebe, da ajuda de familiares e de projetos sociais. “Meu aluguel é R$ 800, então o que eu faço com R$ 50? Nada. Minhas irmãs me ajudam”, diz. Além disso, ela faz faxinas eventuais, mas relata dificuldade em receber um bom pagamento na informalidade. “É justo colocar o preço com que você trabalha, porque não vai trabalhar para ser escravizado. Cada um tem o preço da sua diária. Não é porque eu sou preta, pobre e necessito que não vou trabalhar no meu preço”.

Ela conta que, no mercado formal, deparou-se com jornadas exaustivas, acúmulo de funções e baixa remuneração. São problemas que as empresas precisam endereçar para atrair mão de obra, argumenta Fernando Alves, da Rede Cidadã. “O mercado de trabalho precisa se modernizar, não somente em relação à tecnologia ou às práticas de gestão de pessoas, mas precisa rever o modelo de jornada de trabalho de 6×1, assim como estabelecer efetiva melhoria nas relações humanas entre líderes e liderados. A vida moderna exige novos padrões de qualidade de vida no trabalho, com jornada mais flexível, mais reduzida e ambientes de relacionamentos humanos mais saudáveis, superando a lógica do velho sacrifício como condição para as conquistas básicas da vida”, arremata.

 

Fonte: O Tempo 

 


 
 
 

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