Alimentos ultraprocessados mais baratos pressionam saúde pública e atingem população vulnerável – Simões Filho Fm
por Redação

Alimentos ultraprocessados mais baratos pressionam saúde pública e atingem população vulnerável


 
 
 

O custo mais elevado de alimentos saudáveis em relação aos ultraprocessados tem impacto direto na saúde da população, especialmente entre os grupos mais vulneráveis, e acende um alerta para a saúde pública no Brasil. Pesquisas recentes mostram que produtos ultraprocessados podem se tornar mais baratos do que alimentos in natura e minimamente processados, cenário que influencia padrões alimentares e contribui para o aumento de doenças crônicas no país.

Levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em novembro, aponta que os ultraprocessados tendem a custar menos do que alimentos saudáveis. A projeção para o intervalo de 2025-2026 é que o preço dos ultraprocessados se mantenha em queda, obtendo uma média de R$ 18,40/kg em 2025 e R$ 17,90/kg, enquanto alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários mantenham relativa estabilidade (média de R$ 19,50 em 2025 e R$ 19,60).

Outro estudo, publicado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que o custo dos alimentos afeta diretamente o consumo de dietas saudáveis pela população mais vulnerável. A pesquisa mostra que frutas, hortaliças e outros alimentos in natura pesam mais no orçamento, o que limita o acesso regular a esses itens e amplia desigualdades sociais e de saúde.

De acordo com a pesquisadora Thaís Caldeira, da Escola de Enfermagem da UFMG, o acompanhamento dos preços dos alimentos é feito há mais de dez anos com base em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares e do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). “O que a gente percebe ao longo do tempo é já uma tendência histórica de que o preço dos alimentos in natura e minimamente processados tem aumentado, enquanto o preço dos alimentos ultraprocessados tem ficado mais barato”, afirma.

Segundo a pesquisadora, durante a pandemia houve um aumento expressivo no preço dos alimentos considerados saudáveis, como frutas e hortaliças, que passaram a custar mais do que os ultraprocessados. Apesar de uma redução nos anos de 2023 e 2024, as projeções indicam nova elevação. “O que a gente espera para um cenário futuro é essa inversão novamente do preço dos alimentos ultraprocessados se tornarem mais baratos que o preço dos alimentos saudáveis”, diz.

Maior reflexo na população mais vulnerável

Caldeira ressalta que esse cenário atinge de forma mais intensa pessoas de baixa renda, mulheres chefes de família e idosos. “Esses alimentos, principalmente frutas e hortaliças, têm pesado mais no bolso do consumidor”, explica. Ela aponta ainda fatores como mudanças climáticas, variações cambiais e a priorização da produção de commodities como elementos que pressionam os preços dos alimentos de cadeia curta.

O impacto na saúde é direto. Segundo a pesquisadora, a dificuldade de acesso a frutas e hortaliças reduz o consumo de alimentos que atuam como fatores protetores contra doenças crônicas não transmissíveis. “Esses alimentos vão ter um fator protetor para doenças como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e até mesmo câncer”, evidencia.

Ao mesmo tempo, o aumento do consumo de ultraprocessados está associado a piores desfechos em saúde. “A gente tem estudos mostrando a associação desses alimentos com a prevalência aumentada de obesidade, com a possibilidade de desenvolver câncer, doenças do sistema circulatório e diabetes”, diz Thaís Caldeira. Ela cita ainda evidências que relacionam embutidos, como presunto e salame, ao câncer intestinal.

Do ponto de vista da saúde pública, a pesquisadora alerta para a velocidade do aumento do consumo de ultraprocessados entre famílias de baixa renda. “Essa velocidade é muito mais elevada do que a percebida nas famílias de alta renda”, enfatiza, destacando que o acesso desigual à informação e ao acompanhamento em saúde contribui para esse cenário.

Políticas públicas

As pesquisas também subsidiam políticas públicas. Segundo Thaís Caldeira, os estudos são levados com frequência a ministérios e gestores públicos, mas enfrentam barreiras na implementação. Ela cita a pressão da indústria como um dos entraves. “A gente tem aí um lobby muito intenso da indústria”, realça, ao comentar propostas de taxação de refrigerantes e a definição de tetos considerados ineficazes.

Apesar disso, há avanços, como a rotulagem nutricional com alertas frontais. “A gente vê os estudos mostrando que a população tem observado isso e reduzido seu consumo justamente pela preocupação”, diz. Ainda assim, a pesquisadora reforça que mudanças estruturais são necessárias. “Enquanto o preço dos alimentos saudáveis for mais caro que o dos ultraprocessados, esse cenário não vai mudar.”

Para ela, o ambiente alimentar e a publicidade reforçam escolhas menos saudáveis, sobretudo entre famílias de baixa renda. “O nosso ambiente alimentar como um todo vai contribuir para doença crônica da população e para obesidade”, afirma. Caldeira defende o fortalecimento de políticas públicas e o envolvimento da sociedade civil e da imprensa para garantir o direito constitucional à alimentação adequada. “A gente precisa de uma mudança estrutural para oferecer à nossa população uma alimentação digna”, conclui.

 

Fonte: O Tempo 

 


 
 
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *