O que é o ‘homem funcional’ e por que ele atrai mais as mulheres?
O bancário Breno Matheus Machado é muito agradecido à mãe. Quando adolescente, teve vários videogames quebrados (sim, alguns deles bem caros) por não limpar o quarto ou esconder a sujeira embaixo da cama. Ele aprendeu, na marra, que arrumação de casa não é exclusividade da mãe ou da mulher. O fato de logo cedo saber cozinhar e resolver tarefas rotineiras – como pôr a roupa para lavar – possibilitou a ele um “posicionamento” diferente no mundo das relações.
“Em quase todos os meus namoros, era eu quem fazia o almoço, arrumava a cama e lavava a roupa”, registra Machado. Ele concorda que, ao fazer aquilo que muitos homens deixam para as mulheres realizarem, é um grande diferencial. “Elas gostam e acham até romântico, de certa forma”, analisa. Ele não está errado. Pesquisas mostram que realizar as tarefas de casa pode ser “afrodisíaco”, despertando o desejo principalmente em quem já tem uma relação mais duradoura.
Estudos reforçam que casais preocupados em se ajudar no dia a dia têm uma frequência sexual maior ou mais satisfação, indicando que percepção de justiça no lar está ligada a mais intimidade. É o que apontam, por exemplo, os dados da pesquisa “Marital and Relationship Study”, realizada em 2006 pela Universidade Estadual da Geórgia, nos Estados Unidos, em que homens que assumem uma parte justa das tarefas domésticas são vistos como mais atraentes, o que promove uma vida sexual mais ativa.
Nessa pesquisa, quando a esposa ficou responsável por mais de 60% dos cuidados com os filhos, a avaliação dela sobre a satisfação sexual invariavelmente ganhou índices bem baixos. No Brasil, levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), indica que, apesar de uma evolução, mulheres ainda dedicam aos afazeres domésticos cerca do dobro do tempo em relação aos homens – 21 horas semanais, contra metade disso no caso deles.
O psicólogo e terapeuta sexual Rodrigo Torres lança algumas questões importantes sobre esse tema, especialmente porque, geralmente, as pesquisas partem de um olhar sobre a relação de um casal heterossexual. “(O que é importante frisar) é que isso tudo fala da saúde de uma relação, sobre como duas pessoas estão se dedicando a coisas que são importantes para elas. E isso pode, sim, melhorar a vida sexual das pessoas. Se a relação está legal, a vida sexual também vai ficar legal geralmente”, afirma.
Para o desejo ir além da questão puramente sexual, estimulada por algum perfil mais ligado às questões da justiça das tarefas domésticas, Torres ressalta que “vai depender de cada indivíduo”. “É claro que a admiração pelo outro pode, sim, em algumas pessoas, despertar desejo sexual, mas não em todo mundo. Há aqueles que dividem tarefas, e nem por isso possuem maior desejo”, avalia.
“É preciso tomar cuidado com essas afirmações para a gente não construir nenhum tipo de inferência ou falácia, vamos dizer assim. É claro, que, se o casal se dá bem no dia a dia, muito provavelmente o desejo sexual e a frequência das relações sexuais vão ser satisfatórios quanto a esse relacionamento”, salienta. Por outro lado, pondera ele, relações que são muito pautadas pela construção social do que é ser homem e mulher na sociedade, como se, em relação ao primeiro, não precisasse participar das tarefas, “é algo muito perigoso, pois é uma das coisas que desgastam muito os relacionamentos e acaba impactando o sexo”.
Apesar de certo avanço, com homens que se dedicam mais ao lar e suas atribuições, como demonstrado na pesquisa do IBGE, “muitos deles, inclusive jovens, ainda exibem mentalidades muito arcaicas, perpetuando esse tipo de conceito ultrapassado”. Ele volta a enfatizar que se trata de um conceito muito claro de relação heterossexual. “É uma percepção mais feminina ao buscar o homem que, por exemplo, sabe cozinhar, arrumar a casa”, diz.
Na verdade, o terapeuta sexual observa que as mulheres atualmente estão buscando “homens funcionais”. O que é isso? São adultos autônomos que assumem responsabilidades práticas, domésticas e emocionais, sem depender de terceiros para cuidados básicos, colaborando ativamente no ambiente do lar. “Ser um adulto funcional pode até ser um pouco mais ‘afrodisíaco’, mas não deveria, porque isso é o básico”, assinala.
Fonte: O Tempo