Vivemos sem paciência? Especialistas analisam os efeitos do imediatismo – Simões Filho Fm
por Redação

Vivemos sem paciência? Especialistas analisam os efeitos do imediatismo


 
 
 

As coisas andam devagar demais ou somos nós que perdemos a capacidade de esperar? Em meio a notificações incessantes do celular e à sensação constante de estar perdendo tempo, especialistas tentam compreender por que resistimos tão pouco ao desconforto da espera. A falta dela pode nos levar a tomar decisões piores, à queda do bem-estar e ao desgaste nas relações.

Por outro lado, ser paciente demais nem sempre é benéfico, porque o outro pode se sentir à vontade para extrapolar os nossos limites. O filósofo de origem persa Abu Hamid al-Ghazali (1058–1111) pensava a paciência como garantidora de que nossas ações permanecessem fiéis aos valores fundamentais de um ser humano, como justiça social, honestidade, amizade e compaixão. Quase um milênio depois, essa definição se choca com um universo cada vez mais imediatista.

A reportagem de O TEMPO foi às ruas perguntar às pessoas se elas perdem as estribeiras por qualquer coisa que as contrarie ou se conseguem sustentar a paz mesmo diante de adversidades. No geral, a turma ficou dividida. Aos 85 anos, a professora aposentada Adaltiva Teixeira da Silva diz que já foi tranquila. “Mas depois dos meus 80, não tenho mais paciência com quem reclama. Quando converso com as pessoas, só escuto: ‘tomo remédio, estou com dor’. Não dá”, sentencia.

O comerciante José Carlos de Souza, de 75 anos, colocou parênteses ao comentar sobre a própria capacidade de esperar. “Sou paciente, mas há certas situações que me tiram do sério, como o trânsito. Viajo muito para comprar vinho e cachaça para vender e fico realmente estressado na estrada”, conta.

Com 17 anos, Arthur Coelho trabalha com agropecuária e afirma ter paciência apenas com os animais. “Quando o ser humano fala baboseiras, fica muito difícil”, diz. O celular é outra coisa que lhe deixa estressado. “Quando fico sem internet, já fico com raiva”, reflete. A publicitária Luiza Miranda, de 23 anos, analisa que tem mais paciência com os outros do que consigo mesma. “Às vezes, não consigo algo que estava correndo atrás e imagino que deveria ter feito diferente”, pontua.

Paramentado de Papai Noel da cabeça aos pés, Matheus Henrique de Oliveira, de 37 anos, garante ser um poço de paciência consigo e com os outros, especialmente com os pequenos. “Eu amo crianças, e é preciso ter uma paciência dobrada para lidar com elas. Por isso, é preciso ter muito jogo de cintura”, afirma.

Professora de Psicologia do UniArnaldo Centro Universitário, Rachel Sette analisa que a paciência é a medida da nossa resiliência diante do ritmo não sincronizado do mundo e dos nossos desejos. “Tecnicamente, ela pode ser definida como a capacidade de suportar demoras, frustrações, adversidades ou sofrimentos sem manifestar descontrole emocional, agitação ou desistência. Podemos dizer que paciência é a arte de viver a temporalidade”, destaca.

Quando a capacidade de tolerar a frustração se torna uma disposição estável e previsível no comportamento de um indivíduo, ela se configura como um traço interligado à sua maturidade e inteligência emocional”, diz.

Do latim, a palavra paciência vem de “patientia”, que, por sua vez, deriva do verbo “pati”, que significa “sofrer” ou “aguentar”. Dessa maneira, a paciência é a capacidade que temos de suportar a espera sem perder a calma e sem nos desregular emocionalmente, explica a psicóloga Renata Livramento.

“Embora algumas pessoas possam achar que a paciência é um traço de personalidade, já que, aparentemente, algumas pessoas nascem mais pacientes do que outras, a psicologia a reconhece, na verdade, como uma habilidade emocional complexa, que pode ser aprendida e desenvolvida”, aponta a especialista, destacando que essa habilidade pode ser aprimorada ao longo da vida.

Diferença entre impaciência e ansiedade

Por mais que possam parecer semelhantes, ansiedade e impaciência não são a mesma coisa. “A impaciência está ancorada no tempo, na ação, na demora ou num obstáculo que dificulta e gera frustração de forma imediata. Ao passo que a ansiedade está na ameaça e na incerteza, no medo ou na apreensão em relação a um evento futuro”, explica a professora de Psicologia do UniArnaldo Centro Universitário, Rachel Sette.

Por outro lado, a impaciência pode ser um sintoma secundário da ansiedade, “pois a mente ansiosa tem dificuldade em deixar o tempo fluir sem controle, exigindo resoluções imediatas para reduzir a incerteza”, completa.

A falta de paciência pode, ainda, aumentar a ansiedade, a irritabilidade e o estresse, analisa a psicóloga Viviane Nascimento. “Nesses casos, o cérebro entra em estado de urgência permanente. A impaciência reduz a tolerância à frustração e eleva a reatividade emocional”, explica.

Ela enumera algumas ações para ajudar a treinar a paciência: “Dê uma pausa de três segundos antes de reagir, faça técnicas de respiração e mindfulness, questione seus pensamentos impulsivos, treine pequenas esperas para aumentar a tolerância, reduza multitarefas e organize sua rotina”, salienta.

Paciência tem lado ruim?

Quando a paciência te faz tolerar injustiças, adiar decisões importantes ou permanecer em situações que machucam, ela pode ter deixado de ser virtude e virado passividade prejudicial, aponta a psicóloga Viviane Nascimento.

“A paciência saudável protege; a prejudicial, te silencia”, analisa. A também psicóloga Rachel Sette acrescenta destacando que a paciência prejudicial pode ser confundida com a covardia moral. “Quando a paciência é exercida como submissão diante de abusos, violações de limites ou situações de opressão. A virtude exige a capacidade de esperar o momento certo para a ação justa, não a renúncia à ação”, aponta.

A psicóloga Renata Livramento explica ainda que, ao contrário do que se pode imaginar, a paciência é ativa. “A paciência é a capacidade de esperar o melhor momento para agir; ela é uma ação. Assim, o que é prejudicial não é a paciência, mas a passividade. Algumas pessoas podem considerar que o excesso de paciência leva a essa passividade, mas não é a paciência em si que gera resignação diante de uma situação injusta: é a falta de ação. A paciência virtuosa é justamente a capacidade de usar a sabedoria para identificar o melhor momento de agir. É essa sabedoria sobre qual é o melhor momento para agir que faz a diferença entre uma paciência ativa e consciente e um excesso de passividade”, elabora.

 

Fonte: O Tempo 

 


 
 
 

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