O que é vida boa para você? Estudiosos analisam o que torna a vida mais plena
“Tempos atrás, em 2014, numa entrevista, eu disse (e confirmo e continuo pensando parecido) que não me importava muito ser feliz. De fato, a felicidade sempre me pareceu uma preocupação desnecessária. Certo, ela é um ideal socialmente forte, se não dominante, e, como tal, é, no mínimo, um sucesso comercial – vende bem. Mas essa nunca foi uma razão para eu comprar grande coisa”. É assim, em um tom de provocação e reflexão, que o psicanalista italiano radicado no Brasil Contardo Calligaris (1948-2021) inicia a série de três curtos textos, que concluiu pouco antes de sua morte e, em 2023, foram publicados no livro “O Sentido da Vida” (ed. Paidós).
O tema – o dilema entre a vida orientada pela busca da felicidade ou mesmo pelo transcendente (seja a vida após a morte ou o sonho de construir um mundo melhor) e a vida calcada nas próprias experiências do viver – é recorrente no trabalho do autor. Para ele, porém, há sempre o perigo de, dirigidos por esse ideal de felicidade ou de recompensa, nos distrairmos de nossa própria vida, de maneira que, como escreve, prefere ter uma “vida interessante” – expressão que já havia explicado em entrevistas e outras publicações.
“Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim”, descreveu Calligaris em entrevista ao projeto “Fronteiras do Pensamento”, que reúne pensadores influentes em ciclos de conferências para debater grandes temas da atualidade.
Esse conjunto de reflexões do psicanalista foram construídas ao longo de décadas. Em 2002, por exemplo, ele já publicava no jornal “Folha de S. Paulo” uma coluna em que questionava: “Vida divertida ou vida interessante?”; e na qual defendia: “Existem ao menos duas antíteses de chato: interessante ou divertido. E elas não se equivalem. O divertido nos afasta e nos distrai. O interessante nos envolve e nos engaja”.
Para ilustrar a diferença entre uma coisa e outra, ele cita uma anedota, descrevendo que, na sala de espera de seu dentista, folheava a revista “Caras”, que reunia matérias sobre os ricos e famosos em suas mansões e festas. “Constato e lamento que, inelutavelmente, os retratados sejam deformados por um sorriso idiota. A imagem da felicidade proposta se confunde com um ricto que não é justificado pelas circunstâncias, mas vale como uma declaração: olhem para nós, estamos alhures, esquecidos do mundo e de nós mesmos, nos divertindo”, critica.
Agora, suas provocações ganham respaldo de pesquisadores do campo da psicologia a partir de estudos liderados por Shigehiro Oishi, psicólogo da Universidade de Chicago, que elaborou o conceito de “riqueza psicológica”.
Os achados de Oishi e sua equipe foram apresentados em um artigo publicado neste ano pelo jornal “The Washington Post”, dos Estados Unidos. O texto lembra que, ao longo de mais de 40 anos de pesquisas, duas respostas eram mais bem aceitas quando se questionava o que é uma “vida boa”: alguns pesquisadores consideravam que a resposta era justamente ter uma vida feliz, baseada no conforto, satisfação e em ter mais alegria do que tristeza; outros, defendiam que uma vida boa seria baseada em nutrir experiências significativas, inspiradas por tópicos como propósito, conexão e na melhoria do mundo.
O texto, então, prossegue detalhando que, mais recentemente, uma terceira variação passou a ser considerada: a de que a vida boa poderia significar também uma vida psicologicamente rica, marcada por novas experiências, pelo ato de encarar desafios – incluindo, naturalmente, a lida com o desconforto inerente a essas circunstâncias.
Vida psicologicamente rica
O artigo “Há um caminho para uma vida boa além da felicidade e do significado”, republicado no Brasil pelo jornal “Folha de S. Paulo”, detalha que a vida psicologicamente rica é aquela interessante, que nos convida a sair da zona de conforto e estar abertos a mudar de ideia, e assinala que os três caminhos (para uma boa vida) não são necessariamente excludentes, podendo conviver e transitar em, por exemplo, diferentes fases da vida.
Em entrevista ao Interessa Podcast sobre o tema, o doutor em psicologia social Cláudio Paixão Anastácio de Paula aponta que, para ele, a construção de uma boa vida passa justamente por essa complementariedade: “Quando falamos de vida feliz, com significado e aberta a experiências, estamos falando de elementos que compõem um mosaico de plenitude. Mas há um detalhe: se pensarmos nos tipos de pessoas, é natural que uma parcela seja mais aberta a experiências novas enquanto outra parcela é mais, digamos, conservadora”.
O psicólogo sustenta que essa diferença de perfil tem relação, também, com os recursos – psicológicos, mas também sociais – que cada pessoa acumula ao longo da vida. “É muito mais fácil buscar experiências novas quando se tem uma fonte de renda, uma proteção social ou uma identidade étnico-racial que não te coloca em risco constante. O ideal seria exercitar tudo isso, mas depende da conjuntura de cada um”, avalia.
Como exemplo de como o contexto, inclusive ambiental, vai ser importante nessa equação, Cláudio Paixão recorre a exemplo simples: se abrir a uma nova experiência, como o prazer de andar na chuva, se deixando molhar, vai depender de alguma sensação de segurança “Para que eu goste, preciso ter certeza de que a enchente não vai levar minha casa”, resume, ao mesmo tempo que admite que a vida psicologicamente rica, por abraçar o desafio, tende a favorecer a construção desses recursos – do ponto de vista psicológico. “Essa atitude gera resistência à frustração e equilíbrio emocional, o que não ocorre com aquela pessoa que evita desafios, para quem qualquer imprevisto vira uma tragédia”, opina.
Fonte: O Tempo